Cartas na Mesa
O aroma de alecrim e manteiga clarificada, outrora o perfume da glória da família Valente, agora carregava um traço metálico de tensão. Caio observava o salão principal do 'O Legado' através do reflexo de uma travessa de prata. O restaurante não era mais apenas um negócio; era uma trincheira sitiada. Beatriz circulava entre as mesas com um sorriso ensaiado, mas seus olhos traíam o cansaço de quem sentia o peso de uma vigilância invisível.
— Você está tenso, Caio — murmurou ela, aproximando-se para ajustar uma cadeira. — Os clientes não param de olhar. Dizem que os novos funcionários são… frios demais.
Caio não desviou o olhar. No canto do salão, o Capitão Mendes, um homem de terno impecável, não tocava na comida. Ele monitorava cada movimento com a precisão de um predador. A Horizonte não enviaria um cão de caça como ele se não estivessem prontos para um abate cirúrgico.
— A frieza é o novo padrão de segurança, Beatriz — respondeu ele, a voz baixa e cortante. — O que eles chamam de frieza é a única barreira entre nós e a destruição. Não se preocupe com os comentários. Eu cuido do resto.
Na cozinha, o ar estava ainda mais denso. O emissário da Horizonte, um homem de terno italiano, ajustou a gravata enquanto encarava o chefe de cozinha. Ele não notou que o homem atrás do avental não possuía o olhar de um cozinheiro, mas a postura de um soldado.
— A Horizonte quer apenas um pequeno incidente — sussurrou o emissário, deslizando uma mala de couro sobre a bancada de aço. — Uma contaminação no estoque. Um escândalo sanitário para encerrar o leilão antes que ele comece. O dobro do valor será depositado em qualquer conta offshore.
O 'chef', um veterano de confiança de Caio, não parou de picar os vegetais. O ritmo da faca contra a tábua era constante, hipnótico. Ele apontou para uma câmera de alta definição, instalada por Caio, que piscava com uma luz azul tênue.
— Você veio ao lugar errado, na hora errada — a voz do veterano soou seca. — Gravei cada palavra. Saia antes que eu precise usar métodos menos diplomáticos.
O emissário empalideceu, recuando diante da frieza absoluta do homem. Ele não era um cozinheiro, e aquele local não era mais um restaurante comum; era uma armadilha.
Horas depois, num clube privado, Caio enfrentava os associados da Horizonte. O ambiente era denso, carregado com o cheiro de charutos caros.
— Soubemos que a cozinha do seu restaurante está, digamos, vulnerável — provocou um advogado ligado a Viana, tentando humilhá-lo diante da elite.
Caio não piscou. Ele empurrou uma pilha de fichas que representava o valor exato da dívida hipotecária que aquele mesmo advogado contraíra para esconder desvios de fundos. O silêncio na mesa tornou-se cortante. Ao revelar que detinha o controle sobre o contrato de dívida, Caio desmantelou a autoridade do oponente. A hierarquia da sala mudou instantaneamente: o 'pária' agora era o credor.
— O restaurante não é o problema de vocês — disse Caio, sua voz desprovida de emoção. — O problema é que a Horizonte está comprando lealdade com dinheiro que não existe mais. Eu comprei a dívida de vocês.
De volta ao subsolo do restaurante, as telas de monitoramento pulsavam em um ritmo errático. Uma invasão digital tentava romper o firewall, buscando os arquivos selados da fraude da Horizonte. Mendes estava sondando a rede.
— Estão tentando romper, senhor — alertou seu especialista em inteligência.
— Deixe entrar — comandou Caio. — Dê a eles o acesso ao servidor espelho, mas mantenha o roteamento em um loop de feedback. Se eles querem saber quem eu sou, vamos dar a eles um labirinto de espelhos.
Enquanto o sistema processava a manobra, o telefone de Caio vibrou. Uma mensagem anônima, contendo coordenadas e uma insinuação sobre sua verdadeira identidade. A pressão atingiu o ápice. Mendes sabia que ele era um adversário à altura, mas o Capitão não fazia ideia de que, ao invadir o servidor, acabara de entregar a localização de sua própria base de operações para o contra-ataque de Caio.