A Batalha dos Bastidores
O subsolo de 'O Legado' não cheirava mais a especiarias. O ar estava rarefeito, saturado pelo zumbido dos servidores e pelo brilho frio dos monitores que mapeavam a rede local. Caio Valente, imóvel diante da tela principal, observava os pacotes de dados invasores. Não era um ataque comum; era um rastreador de IP desenhado para localizar a origem da resistência. Mendes estava caçando a fonte.
— Isso não é uma inspeção sanitária, Caio. O que está acontecendo? — A voz de Beatriz ecoou no espaço confinado. Ela estava no topo da escada, os olhos fixos nos homens de postura rígida que ocupavam os postos de controle — veteranos que ela reconhecia, mas que não eram cozinheiros.
Caio não se virou. Seus dedos deslizavam pelo teclado com precisão cirúrgica, isolando o protocolo de rastreamento.
— O jogo mudou, Beatriz. Eles não querem mais fechar o restaurante; querem a chave de quem o protege — respondeu Caio, a voz gélida. — O Capitão Mendes não veio negociar. Ele veio me caçar no único terreno que ele acha que domina.
Beatriz desceu os degraus, a postura firme apesar da exaustão.
— Você trouxe a guerra para dentro da nossa casa. Se este restaurante for apenas uma fachada para o seu passado… — Ela parou, a frase morrendo no ar.
Caio isolou o ataque em um servidor fantasma, um chamariz digital, e o viu ser devorado pelo inimigo. Mendes estava perto. No seu terminal, Caio não perdeu tempo. O telefone vibrou: o advogado da Horizonte, o mesmo que tentara intimidar Beatriz, ligava desesperado.
— Valente, você não entende com quem está lidando. A Horizonte vai destruir o que sobrou do seu nome. Solte o processo da hipoteca ou você não terá onde morar amanhã.
Caio observou o cursor piscando sobre o comando final: a transferência dos dados de lavagem de dinheiro da Horizonte para um domínio público.
— Sua hipoteca não é mais o meu maior problema, doutor — Caio disse, sem hesitação. — Enquanto você me ameaçava com papéis, eu mapeava cada conta offshore vinculada ao Capitão Mendes. E, curiosamente, o rastro leva direto para o conselho da sua empresa.
Ele pressionou 'Enter'. O escândalo explodiu. A Horizonte, forçada a conter o dano, desviou recursos de campo, deixando Mendes isolado.
Instantes depois, o próprio Mendes entrou no salão principal. Ele vestia um terno sob medida que mal disfarçava a postura militar.
— Inspeção sanitária — Mendes anunciou, ignorando Beatriz e caminhando até Caio. — Ouvi dizer que este lugar se tornou uma fortaleza. Para um homem que voltou sem um centavo, você tem muitos segredos.
Caio não se levantou. Ele abriu um tablet, exibindo os registros de crimes de guerra de Mendes, ocultos sob camadas de burocracia. O rosto do capitão perdeu a cor.
— Saia — disse Caio, com uma autoridade que nenhum tribunal poderia refutar. — Se der mais um passo, o mundo saberá quem você era antes de ser um 'consultor'.
Mendes recuou, mas o ódio em seus olhos era absoluto. Contudo, o silêncio durou pouco. As luzes de emergência pulsaram em vermelho. As telas congelaram. Um padrão de código binário, agressivo e familiar, começou a devorar a interface de segurança. A arquitetura de proteção de Caio estava sendo desmontada. Mendes não buscava apenas a falência; ele estava expondo a assinatura digital de Caio. Se aquele código chegasse à Horizonte, o passado de Caio seria desintegrado. Ele percebeu que a única saída era o ataque total: ele forçaria um encontro com o conselho da Horizonte, exigindo o controle da licitação da cidade, ou destruiria a empresa por dentro.