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Chapter 5: O Jantar da Discórdia

Caio infiltra-se no jantar de gala da elite, confrontando Marcos Viana e expondo a vulnerabilidade do Grupo Horizonte. Ele identifica um espião, sinalizando que o controle da elite sobre a cidade está colapsando.

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O Jantar da Discórdia

O vapor da cozinha de 'O Legado' ainda carregava o aroma de especiarias ancestrais, mas o peso no ar era de chumbo. Caio Valente observava o convite dourado sobre a bancada de mármore, um objeto que representava, simultaneamente, o desprezo da elite e a chave para sua destruição. Beatriz, com as mãos trêmulas de exaustão, limpava uma faca de chef, o olhar fixo no vazio.

— Eles não vão parar, Caio. O Grupo Horizonte não é o Salles. Eles não operam apenas com licitações forjadas; eles operam com o silenciamento de quem ousa existir — disse ela, a voz carregada de uma resignação que ele se recusava a aceitar.

Caio não desviou o olhar do convite. Ele sabia que cada segundo gasto em hesitação era uma vitória para aqueles que viam o restaurante como um mero ativo imobiliário a ser liquidado. Ele tocou a borda texturizada do cartão.

— Beatriz, o leilão foi anulado, mas a guerra apenas mudou de formato. Se o restaurante é o coração da nossa linhagem, este convite é o bisturi. Vou entrar naquele jantar de gala não como um convidado, mas como o cirurgião que vai expor a podridão que sustenta a fachada deles.

Ele se moveu para o vestiário. Ao vestir o terno, a postura de Caio mudou. A aura de pária social foi substituída por uma precisão predatória. Ele não era mais o ex-soldado que voltara de mãos vazias; ele era o homem que detinha os arquivos da fraude digital e a confissão que derrubaria o secretário municipal.

No salão de gala da Associação Comercial, o ar estava denso com o perfume caro de quem se sentia dono da cidade. Caio atravessou o foyer com a cadência de quem caminhava em território conquistado. O silêncio avançou como uma onda à frente de seus passos. Conversas sobre licitações cessaram. Ricardo Salles estava detido, mas sua sombra ainda pairava sobre a elite; a presença de Caio ali era uma afronta direta.

— O intruso tem coragem, admito — murmurou Marcos Viana, posicionado próximo a uma coluna de mármore, observando Caio com um sorriso desprovido de calor. — Mas a coragem é um luxo que logo se torna um passivo.

Caio ignorou o executivo da Horizonte, focando em um magnata da construção civil cuja mão tremia ao segurar a taça.

— O edital de reforma do centro histórico foi cancelado — disse Caio, sua voz cortante. — E os registros de quem o assinou estão em mãos muito mais interessadas na justiça do que na conveniência.

O magnata empalideceu, o cristal tilintando contra seus dentes. Caio não esperou pela resposta; ele sabia que o medo era a única moeda que aquela elite reconhecia. Ele seguiu para o terraço, onde Marcos Viana o aguardava, a arrogância servindo como uma armadura que já começava a trincar.

— Salles era um amador, um peão que se perdeu na própria ganância — disse Viana, girando o vinho. — A Horizonte não comete os mesmos erros. A cidade não pertence aos Valente, pertence a quem dita o ritmo do progresso.

Caio aproximou-se, invadindo o espaço pessoal do executivo.

— O progresso que vocês vendem tem cheiro de fraude, Viana. Salles não perdeu apenas o leilão. Ele perdeu a utilidade. E quando um magnata torna-se um passivo, ele é descartado. Você não está aqui para me ameaçar. Está aqui porque a Horizonte já sente o impacto.

Viana perdeu a compostura por um segundo. Aquele breve espasmo de incerteza foi a confirmação que Caio precisava. Ao se retirar, seus olhos percorreram o estacionamento. Na penumbra, um homem encostado a um SUV preto digitava freneticamente em um dispositivo.

Caio aproximou-se em silêncio. O som de seu sapato contra o asfalto ecoou como um disparo. O homem deu um sobressalto, o dispositivo quase caindo. Ao ver Caio, o espião da Horizonte congelou.

— Diga aos seus mestres que o jantar acabou — disse Caio, sua voz fria como o aço. — E que o próximo prato servido no 'O Legado' será a falência de vocês.

Ele deixou o homem paralisado, sabendo que o pavor daquele espião seria o vírus que infectaria a sede da Horizonte antes do amanhecer.

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