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Chapter 4: Sombras de um Poder Superior

Caio anula o leilão de 'O Legado' expondo a fraude de Salles, mas a vitória é interrompida pela chegada de Marcos Viana, um executivo do Grupo Horizonte. Viana ameaça Caio com retaliações sistêmicas, revelando que a Horizonte é a verdadeira força por trás da desapropriação. Caio recusa a intimidação e identifica um espião monitorando o restaurante, preparando-se para infiltrar o jantar de gala da elite.

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Sombras de um Poder Superior

O martelo do leiloeiro não encontrou a madeira. Ele parou no ar, suspenso pela voz de Caio Valente que cortou o salão do restaurante 'O Legado' como um bisturi. A projeção no telão improvisado não mostrava apenas números; mostrava a anatomia de uma fraude. A confissão gravada do secretário municipal de urbanismo, detalhando cada suborno e cada alteração forjada no edital, ecoava pelas paredes de azulejos antigos, transformando o ar viciado da sala em um vácuo de pânico.

Ricardo Salles, que segundos antes sorria com a soberba de quem já sentia o cheiro da vitória, viu seu mundo colapsar. Seus dedos, finos e acostumados a assinar sentenças de despejo, tremiam sobre a mesa de mogno. Ao redor, a elite da cidade — aqueles que haviam vindo apenas para ver o banquete dos abutres — recuou, buscando distância do magnata caído. Caio não gritou. Ele não precisava de volume; sua autoridade emanava da precisão de seus movimentos.

— A licitação está anulada — declarou Caio, a voz baixa, desprovida de qualquer euforia. — O senhor Salles não está comprando um imóvel. Está sendo removido por tentativa de fraude contra o patrimônio histórico desta cidade.

A polícia, acionada minutos antes por uma denúncia anônima que Caio havia protocolado pessoalmente, entrou no salão. O contraste era brutal: de um lado, a tradição familiar de Beatriz, que observava com as mãos no peito, o rosto pálido pelo choque; do outro, a ruína de Salles, sendo algemado sob os olhares de seus ex-pares. Quando o levaram, o magnata soltou um último rugido de despeito: — Você não sabe com quem está mexendo, Valente! A Horizonte não vai perdoar isso!

Caio ignorou a ameaça. Ele sabia que Salles era apenas a ponta do iceberg. O verdadeiro problema já estava no salão, disfarçado entre os convidados que tentavam sair sem serem notados.

Minutos depois, no escritório dos fundos, o cheiro de açafrão e gordura quente — o aroma que definia o poder dos Valente — parecia uma relíquia diante da presença de Marcos Viana. O executivo da Horizonte, impecável em seu terno cinza sob medida, não parecia um homem que acabara de perder um peão. Ele parecia um arquiteto avaliando uma estrutura que precisava ser demolida. Viana deslizou um envelope pardo sobre a mesa de madeira gasta.

— O senhor Salles era um amador, Caio — disse Viana, o tom de voz tão frio quanto um contrato de rescisão. — Ele jogou sujo, mas jogou mal. Nós preferimos a eficiência. O que aconteceu hoje foi um erro de cálculo, não uma derrota. O Grupo Horizonte não perde ativos; nós os realocamos.

Caio não tocou no envelope. Seus olhos, endurecidos por anos de um tipo de conflito que Viana jamais compreenderia, fixaram-se no executivo.

— Vocês não realocam — respondeu Caio, cortante. — Vocês devoram. E Salles não era um amador; ele era a mão de vocês. A confissão que entreguei hoje não termina com ele. Ela tem nomes de diretores da Horizonte que assinaram as ordens de despejo ilegais.

Viana sorriu, um gesto que não alcançou seus olhos. — Você tem coragem, eu admito. Mas a coragem é um luxo que dura pouco quando a liquidez acaba. Pense na sua mãe. Pense no 'Legado'. Você acha que pode manter as portas abertas quando todos os fornecedores, todos os créditos e todos os órgãos de fiscalização receberem um telefonema nosso?

O executivo levantou-se, alisando o terno. — A guerra subiu de nível, Valente. Você não está mais lidando com um magnata imobiliário. Está lidando com o sistema.

Quando Viana saiu, o restaurante parecia ter encolhido. Beatriz, assustada com a tensão que emanava do escritório, aproximou-se de Caio na cozinha. Ela via o filho, mas não reconhecia o homem. Seus movimentos eram econômicos, predatórios, como se ele estivesse sempre à espera de um ataque.

— Caio, essa gente não vai parar — a voz de Beatriz tremeu. — Vi os homens de terno cinza lá fora. Eles não parecem investidores. Parecem abutres.

Caio virou-se, seus olhos encontrando os dela com uma honestidade brutal. — Eles são o Grupo Horizonte, mãe. Salles era apenas a mão que eles usavam para segurar a faca. Agora que a mão foi cortada, eles decidiram vir pessoalmente.

Antes que Beatriz pudesse responder, um movimento na penumbra da área externa capturou a atenção de Caio. Um vulto, parado junto à entrada de serviço, observava o movimento da cozinha. Não era um cliente. Era um observador. Caio não correu. Ele apenas observou o espião, sentindo a adrenalina do início de uma caçada. Ele sabia que a elite da cidade já começara a tremer, e o próximo passo não seria no restaurante, mas no jantar de gala onde o destino da cidade era realmente decidido. O convite que ele havia interceptado no bolso de Salles seria sua passagem para o ninho das serpentes.

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