O Martelo da Justiça
O salão do Edifício Horizonte cheirava a café caro e desdém. Ricardo Salles ocupava a primeira fileira, os dedos tamborilando um ritmo arrogante sobre o joelho. Ele não estava ali para negociar; estava ali para enterrar o passado. O restaurante 'O Legado', o coração da linhagem Valente, seria reduzido a um ativo imobiliário antes do almoço.
Beatriz, a matriarca, estava isolada num canto, vigiada por seguranças que não se davam ao trabalho de ocultar o desprezo. Sua coluna permanecia reta, mas a palidez em seu rosto denunciava o custo daquela humilhação pública. O leiloeiro, um homem de voz engomada, ajustou o microfone com pressa.
— Lote 42: imóvel comercial e terreno adjacente. Lance inicial: quatrocentos mil reais. Alguém?
Salles deu um aceno quase imperceptível. Seu testa-de-ferro levantou a placa.
— Quatrocentos e dez mil — anunciou o leiloeiro, os olhos saltando para o relógio. — Dou-lhe uma... dou-lhe duas...
O martelo subiu, o arco de madeira pronto para selar o destino dos Valente. Foi então que o silêncio foi cortado por passos firmes. Caio Valente atravessou as portas duplas. Ele não vestia o terno de gala da elite; sua jaqueta escura e funcional era uma afronta ao brilho do salão. Ele caminhou com a cadência de quem conhece o terreno, ignorando os olhares de desdém. Ao passar por Beatriz, ele não ofereceu palavras, apenas um olhar firme — uma ordem silenciosa que a fez esquecer o pânico por um segundo.
Caio subiu ao palco. O leiloeiro tentou barrar sua passagem, mas recuou ao encontrar a frieza nos olhos do ex-soldado. Com um gesto metódico, Caio conectou seu tablet ao sistema de som. O murmúrio da elite transformou-se em um choque gelado quando a voz trêmula do secretário municipal de urbanismo preencheu o recinto, detalhando cada cifra desviada e cada suborno pago para forjar a dívida tributária que justificava o leilão.
Salles levantou-se, o rosto retorcido em fúria.
— Isso é uma montagem! Uma fraude de um pária! — ele berrou, mas sua voz soou oca contra o peso das provas projetadas no telão: registros bancários criptografados e a confissão gravada. A elite, antes submissa ao magnata, começou a se afastar, criando um vácuo social ao redor dele. O leiloeiro, pálido, declarou a anulação do leilão sob os gritos de protesto de Salles. A polícia, alertada por Caio, entrou no salão para deter o cúmplice do magnata no meio da plateia.
Com o leilão anulado e Salles em desgraça, Caio desceu do palco. Ele não esperou por aplausos. Ao alcançar a saída, uma sombra bloqueou seu caminho: um emissário do Grupo Horizonte, de olhar vítreo.
— O Grupo Horizonte não aprecia ser ignorado, Caio — o homem disse, estendendo uma pasta de couro. — Salles era apenas um peão descartável. Você acha que venceu? Você mal arranhou a superfície do que controla esta cidade.
Caio invadiu o espaço pessoal do emissário, forçando-o a recuar. Com um movimento preciso, Caio ajustou a gravata do subordinado, um gesto de humilhação absoluta.
— Se Salles é um peão, o que isso faz de você? — Caio perguntou, a voz gélida. — Apenas um mensageiro que não sabe que a guerra mudou de dono.