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Chapter 2: A Armadilha do Edital

Caio infiltra-se no escritório de Salles, documenta a fraude tributária e grava a confissão do secretário municipal cúmplice, enquanto o despejo de Beatriz é executado no salão principal, preparando o palco para a reversão pública no leilão.

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A Armadilha do Edital

O ar no escritório de Ricardo Salles era rarefeito, carregado com o cheiro de café caro e a secura de documentos falsificados. Caio Valente não sentia o peso da humilhação que Salles tentara imprimir sobre ele minutos antes; ele sentia apenas a precisão do alvo. Atrás da divisória de vidro fosco, ele observava o magnata e o secretário municipal de urbanismo, homens que acreditavam ter transformado a história da família Valente em um ativo de leilão descartável.

Caio não precisou de força bruta. Seus dedos, treinados na contrainformação, navegaram pelo servidor central com a frieza de um cirurgião. O cursor piscava, revelando a anatomia da fraude: o edital de desapropriação de 'O Legado' não era uma dívida tributária, mas uma manobra de engenharia financeira. Cláusulas de subvalorização proposital, assinadas pelo secretário municipal, garantiam que o restaurante fosse arrematado por uma fração do seu valor real.

— O sistema é um reflexo do homem — murmurou Caio, a voz baixa, desprovida de qualquer tremor. Ele copiou o arquivo final para um drive criptografado. A prova da fraude digital era irrefutável.

Um estalo na maçaneta interrompeu o silêncio. Caio recuou para a sombra da divisória no exato momento em que Salles entrava, acompanhado pelo secretário. A postura de ambos era de triunfo absoluto.

— O edital precisa ser assinado antes do martelo, Doutor Salles — dizia o secretário, a voz carregada de uma servidão nervosa. — Se a família Valente apresentar qualquer recurso, o processo trava. O tempo é curto.

— A família Valente não tem recursos — Salles riu, um som seco que ecoou contra as paredes de vidro. — Beatriz está sendo despejada agora. O leilão é apenas uma formalidade para legitimar a posse.

Lá embaixo, no salão principal, o cenário era de desolação. O oficial de justiça, flanqueado por seguranças, avançou sobre Beatriz. O timbre oficial do fundo imobiliário, exibido como uma arma, selava o destino do restaurante.

— Despejo imediato, Beatriz. A ordem é irrevogável — declarou o oficial, a mão pousada no cassetete, um sorriso cruel curvando seus lábios. — Dez minutos para o leilão. O fundo não espera por falidos.

Beatriz não chorou. Ela manteve a espinha ereta, o orgulho de uma vida inteira de trabalho lutando contra a humilhação pública. Caio, observando pelo monitor de segurança no escritório, sentiu o controle gélido em suas veias se converter em uma determinação absoluta. Ele não interveio. Ele esperou. Ele precisava que a arrogância de Salles atingisse o ápice, que a elite da cidade estivesse presente para testemunhar a queda do magnata.

O secretário municipal, alheio à presença de Caio, continuou a detalhar o desvio dos fundos de compensação da prefeitura. Caio gravou cada sílaba. A confissão era a peça final do quebra-cabeça. O cúmplice de Salles caminhou até a mesa central, sem notar que o homem que ele considerava um fracassado já havia capturado o destino de sua carreira em um chip de silício.

O leilão começaria em instantes. Salles ainda não sabia que o martelo que ele pretendia usar para selar o destino dos Valente seria a ferramenta que quebraria seus próprios dentes.

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