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Chapter 2: O Preço da Informação

Beatriz confronta Tiago em um café decadente para decodificar o livro-razão. Tiago revela que o livro é sua única proteção contra a família, mas exige que Beatriz roube um documento incriminador do cofre da mansão em troca de sua ajuda. O capítulo termina com o advogado da família surpreendendo Beatriz no esconderijo.

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O Preço da Informação

O ar no corredor do Hospital Central era denso, saturado pelo cheiro de antisséptico e pela urgência metálica de um relógio que, para Beatriz, parecia avançar mais rápido a cada respiração. Setenta e duas horas. O prazo fatal para a leitura do testamento, quando a fortuna da família se tornaria uma fortaleza jurídica inalcançável, era agora um tique-taque constante em sua nuca. A quina rígida do livro-razão, escondido sob seu casaco, pressionava sua costela como uma adaga. Aquele objeto não era apenas papel e couro; era um dossiê de extermínio.

Antes que pudesse alcançar a saída de emergência, uma mão pesada travou seu ombro. O segurança, um homem cujas cicatrizes no rosto denunciavam anos de serviços sujos para a elite, bloqueou o caminho. Seus olhos, gélidos, desceram até o crachá que ela furtara.

— A senhora não deveria estar nesta ala, doutora — disse ele, a voz um aviso seco. — Recebemos um alerta de movimentação não autorizada no arquivo. A diretoria está revisando as câmeras agora.

Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas, mas forçou a armadura que aprendera a usar nas festas de gala: o desprezo frio. Ela ergueu o queixo, encarando-o como se ele fosse um inseto sob uma lente de aumento.

— A diretoria? — Beatriz soltou uma risada curta, destilando a arrogância de Celina. — Estou aqui a mando da própria dona Celina para recuperar documentos sigilosos de um 'ativo' que vocês tiveram a incompetência de deixar exposto. Se quiser explicar a ela por que está atrasando um procedimento de segurança patrimonial, fique à vontade. O telefone está na sua cintura, não está?

O segurança hesitou. O medo de Celina era mais profundo que a lealdade ao protocolo. Ele recuou, desviando o olhar. Beatriz não esperou. Caminhou com passos firmes, sentindo o peso do livro como uma âncora enquanto mergulhava na noite úmida de São Paulo.

O encontro com Tiago aconteceu em um café decadente no centro, um antro de luz fluorescente falha e cheiro de borra de café queimada. Tiago, o ex-arquivista, tremia tanto que a colher de metal batia ritmicamente contra a xícara de porcelana lascada.

— Você não entende, Beatriz — sussurrou ele, os olhos fixos na porta da rua. — Esse livro não é uma prova. É uma sentença de morte. A sua, a minha, a de qualquer um que souber ler o que está ali.

Beatriz deslizou o volume de capa preta sobre a mesa de fórmica gasta.

— Helena foi classificada como 'Ativo Liquidado' — rebateu ela, a voz cortante. — Não foi uma morte natural. Você trabalhou no setor de registros. Diga-me quem autorizou a baixa.

Tiago recuou, o rosto pálido tornando-se cinzento. Ele se recusava a tocar no livro, como se a simples posse do objeto pudesse incinerar sua pele.

— Eu vi os nomes, Beatriz. Pessoas importantes, juízes, sócios. Se eu te ajudar a decodificar isso, não serei apenas um cúmplice. Serei o próximo 'ativo'. Você me trouxe a prova do meu próprio fim.

Beatriz inclinou-se, reduzindo a distância entre eles. O desespero dele era sua única alavanca.

— Então esse é o preço, Tiago? O seu silêncio custa a vida da minha irmã? Se você quer sobreviver, precisa me dar o nome do executor. O 'Arquivista'. Se não me der agora, a única proteção que você terá será o meu silêncio sobre a sua participação nisso. E acredite, minha paciência acabou.

Tiago engoliu em seco, o suor escorrendo pelas têmporas. Ele sabia que Beatriz não estava blefando; a urgência da herança a tornava perigosa.

— Existe um documento — ele sibilou, a voz quase inaudível. — Um recibo de transferência assinado pelo advogado da família, que prova que eu fui apenas um executor de ordens, não o idealizador. Está no cofre da mansão. Se você trouxer esse documento, eu decodifico cada página. Eu te dou o nome do executor. Mas saiba: o livro é a única coisa que me mantém vivo. Se eles souberem que você o tem, eles não virão por mim. Virão por nós dois.

Beatriz sentiu o peso da escolha. Roubar o documento da mansão era um suicídio social e físico, mas era a única forma de forçar Tiago a falar. Ela assentiu, uma promessa silenciosa de guerra. Horas depois, no silêncio do apartamento de emergência, o som metálico de uma chave girando na fechadura interrompeu sua concentração. Não era o porteiro. A porta se abriu, revelando o advogado da família, com um sorriso que não chegava aos olhos, enquanto ela ainda segurava o livro-razão, o lacre da verdade finalmente quebrado.

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