O Arquivo da Morte
O ar no subsolo do Hospital Central tinha o gosto metálico de sangue seco e desinfetante barato. Beatriz contornou a última fileira de estantes de aço, sentindo o suor frio colar a blusa às costas. O relógio de pulso, um lembrete cruel de sua obsolescência, marcava o ritmo da contagem regressiva: setenta e duas horas. Três dias para a leitura do testamento, três dias para que a fortuna da família — e todos os vestígios do paradeiro de sua irmã, Helena — fossem legalmente enterrados sob o controle absoluto de Celina.
— Você tem exatamente cinco minutos — a voz de Tiago era um fio de desespero, ecoando entre as pilhas de prontuários. Ele não a encarou, os dedos trêmulos digitando freneticamente no terminal. — Se o sistema registrar um acesso não autorizado na minha estação, eu perco minha licença. E, considerando quem é a sua família, perco muito mais do que isso.
Beatriz ignorou o pânico dele. Seus olhos varreram as etiquetas de identificação até encontrar o prontuário de Helena. O papel, amarelado pelo tempo e pelo descaso, parecia pesar quilos em suas mãos. Ela abriu a pasta, buscando o registro da noite do desaparecimento. O que encontrou, porém, paralisou seu coração. A causa da morte não era um acidente, nem um sequestro. Estava escrito com uma caligrafia fria e burocrática: “Morte por causas naturais, protocolo de descarte autorizado”.
— Isso é uma mentira — Beatriz sibilou, a voz falhando. Atrás da placa de gesso que protegia o nicho onde a pasta estava, ela sentiu um volume encadernado em couro sintético. Ao puxá-lo, o peso do objeto confirmou: era o livro-razão. O registro de todas as transações que mantinham a família no topo da cadeia alimentar social.
O silêncio do corredor foi rasgado pelo estalo metálico de uma bota de segurança no concreto. Beatriz congelou. A luz de uma lanterna de alta potência varreu as prateleiras, iluminando nomes de pacientes que haviam sido apagados da história.
— Eu sei que alguém entrou aqui — a voz do segurança, um homem que Beatriz reconhecia das festas da família, carregava uma autoridade que não pertencia ao hospital, mas ao clã. — A ordem é clara: qualquer intrusão deve ser contada como falha de segurança. O protocolo de silenciamento está ativo.
Beatriz prensou o corpo contra a tubulação fria, o livro-razão apertado contra o peito. Ela precisava de um nome, de uma prova que não pudesse ser descartada. Ela deslizou pelo duto de ventilação, o metal arranhando sua pele, enquanto o segurança parava a poucos metros. Ela conseguiu escapar, mas o crachá que deixou cair no chão do arquivo era uma marca indelével. Eles sabiam que ela estivera ali. O tempo, antes um cronômetro, agora era uma caçada.
Escondida no canto de uma lanchonete de rodoviária, a duas quadras do hospital, Beatriz abriu o volume sob a luz mortiça. Eram 03h14 da madrugada. As páginas eram preenchidas por uma caligrafia metódica, um registro contábil de um monstro. Não havia sentimentos, apenas números, datas e códigos de transação cruzando contas em paraísos fiscais com delegacias e clínicas. O sistema era brutal: a família não apenas controlava o patrimônio, eles liquidavam o que chamavam de "passivos".
Seus dedos trêmulos percorreram a lista de nomes datada de seis meses atrás. Ela encontrou o nome da irmã, Helena, na metade da página. O coração de Beatriz falhou uma batida. Não era apenas o nome; ao lado dele, uma etiqueta de status, gravada em tinta preta que parecia ainda fresca: Ativo Liquidado.
Tiago surgiu das sombras da lanchonete, o rosto pálido e suado. Ele olhou para o livro-razão e depois para Beatriz, com a expressão de quem já estava morto.
— Você não deveria ter aberto isso — ele sussurrou, a voz mal audível acima do ruído dos caminhões na estrada. — Esse livro não é apenas uma lista de crimes, Beatriz. É a única coisa que me mantém vivo. Se a Celina souber que você o tem, eles não vão apenas atrás de você. Eles vão apagar qualquer um que saiba da existência desse registro. E eu sou o primeiro da lista.