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Chapter 9: A Queda da Herdeira

Kaelen manipula Valéria no leilão fazendo-a gastar 62.400 Fluxo num núcleo falso, expondo-a publicamente e derrubando-a sete posições. Ganha três aliados do bloco médio e sobe para o top-5. Valéria o confronta, revela seu próprio parasita da Seita e jura matá-lo no duelo público antes do reset. Kaelen entra na zona aberta, ativa o núcleo em pulso mínimo apesar da drenagem acelerada e encara a primeira ronda de manutenção com 41 horas restantes.

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A Queda da Herdeira

Kaelen deslizou pela entrada lateral do Salão de Leilões Auxiliar com exatos sete minutos para o fechamento do lote principal. O cronômetro no pulso piscava vermelho: –38.912 Fluxo e 33h41min até o reset semanal. O hematoma na mandíbula ainda latejava da emboscada, mas a dor era só ruído de fundo agora. Ele precisava ver o martelo cair.

O salão fervia. Luzes néon brancas batiam nos rostos suados dos cadetes e nos ternos impecáveis dos representantes de linhagem. No pódio elevado, Leiloeiro Dorn segurava o martelo com a calma de quem já viu fortunas nascerem e morrerem no mesmo golpe.

— Lote 47-B. Núcleo de Amplificação Estelar série Vermillion. Lance inicial: 18.400 Fluxo.

A placa verde-esmeralda de Valéria subiu antes do eco terminar. Número 004. Ela estava na primeira fila, coluna reta, queixo erguido como se o ar pertencesse a ela. Ao lado, o primo da linhagem anotava cada movimento num tablet holográfico.

Kaelen sentiu o parasita dar um espasmo curto no esterno. Dor fina, agulha girando. Ignorou. Do fundo da multidão, uma conta anônima — plantada por ele no Corvo Cinza horas antes — ergueu a placa.

— 19.200.

Valéria virou o rosto na direção da voz, sobrancelha arqueada. Então voltou a erguer a própria placa.

— 21.000.

A anônima contra-atacou: 24.800. Depois 29.000. Depois 34.500. Cada salto era calculado para cutucar exatamente o orgulho dela: alto o suficiente para doer, baixo o suficiente para parecer alcançável. Valéria mordia. O primo ao lado dela começou a suar.

— 48.000 — anunciou ela, voz cortante.

Silêncio no salão. Até Dorn ergueu uma sobrancelha.

A conta anônima ficou quieta. Valéria sorriu, vitória curta estampada no rosto.

— Martelando uma vez… martelando duas vezes…

Kaelen baixou o capuz apenas o suficiente para que ela o visse na penumbra da multidão. Seus olhos se encontraram. O sorriso dela morreu.

— Vendido! — Dorn bateu o martelo.

Um técnico subiu ao pódio com o núcleo. Abriu a carcaça diante de todos. O interior estava vazio: apenas fios cortados e um cristal opaco falsificado. Nenhum traço de amplificação estelar.

Gritos abafados. Risos nervosos. Valéria ficou imóvel, placa ainda erguida como se o martelo não tivesse caído.

— Artefato falsificado — anunciou Dorn, voz neutra. — Pagamento bloqueado. Multa de integridade de 15% sobre o lance final aplicada à compradora.

O visor de Valéria piscou vermelho. –62.400 Fluxo. Quase todo o líquido acumulado no ciclo evaporou em segundos. Ela caiu sete posições no ranking instantâneo. A multidão virou o rosto.

Kaelen já estava se movendo para a saída quando ouviu o murmúrio dela, baixo, só para ele:

— Você acaba de comprar sua sentença de morte no próximo duelo.

Ele não respondeu. Apenas continuou andando.

Nos corredores de saída, a multidão já mudava de órbita. Ria Vex foi a primeira a interceptá-lo, ombros largos bloqueando a passagem.

— Sessenta e dois mil por sucata. Como você fez isso?

Kaelen parou. O parasita pulsava mais forte agora, drenagem acelerando só de estar exposto.

— Plantei o rumor na fila de entrada do Corvo. Depois só precisei ficar calado enquanto ela tentava provar que ninguém a enganava.

Tomás Kael deu um riso seco.

— A linhagem dela vai cobrar isso em sangue.

— Já está cobrando — disse Lira Dorn, olhando por cima do ombro dele.

Valéria apareceu no topo da escadaria circular, rosto lívido sob as luzes. Seus olhos cravaram em Kaelen. Mas os cadetes do bloco médio já formavam um semicírculo ao redor dele. Ria cruzou os braços.

— Se ela vier, passa por mim primeiro.

Tomás e Lira assentiram. Três apoios declarados. O ranking piscou no ar: Posição 6 – Kaelen Voss. Cláusula de influência acionada.

Kaelen sentiu o parasita reagir ao fluxo de poder novo. Drenagem subiu para 0,9% por minuto. Ele apertou o passo em direção à grade de contenção da zona aberta.

A passarela estava deserta. Luzes vermelhas baixas marcavam o limite. Ele encostou na grade fria e cuspiu sangue entre as frestas. O vermelho pingou na escuridão abaixo, onde os mechs rangiam.

Passos de salto de titânio. Valéria surgiu na curva, uniforme de combate sem insígnias, olhos injetados de supressor.

— Você deixou sangue na emboscada, Kaelen. E assinaturas não mentem. O núcleo que você usou tem o mesmo traço espectral que o seu.

Ele se endireitou devagar.

— Então você sabe que eu escapei. E sabe que estou aqui.

Ela avançou um passo. A mão direita tremia de raiva contida.

— Eu sei que você carrega um parasita da Seita. Igual ao meu. Minha linhagem está sendo drenada há duas gerações. E você… você é o erro que vai me custar tudo.

Kaelen sentiu o núcleo estabilizador pulsar em resposta. Dor lancinante no peito.

— Se me matar aqui, o contrato de servidão me protege. Imunidade temporária. Você só vai acelerar a auditoria contra si mesma.

Valéria parou. Lágrimas de fúria nos cantos dos olhos.

— No duelo público de amanhã, antes do reset, eu arranco esse núcleo do seu peito na frente de toda a Academia.

Ela recuou, tremendo, e desapareceu na curva.

Kaelen atravessou a comporta pressurizada da zona aberta. O ar cheirava a graxa queimada e ozônio. Supervisor Dorn ergueu os olhos do tablet.

— Nome e contrato.

— Kaelen Voss, 774-19-Ápice. Servidão compulsória, bloco 7-C.

Bipe seco. O ranking atualizou no ar: Posição 5 – Kaelen Voss – Fluxo líquido: –38.912 – Pontuação: +4.180 (Δ+1.920).

Top-5. Dorn quase sorriu.

— Vista o macacão. Primeira ronda em sete minutos. Seis mechs classe 7-B sobrecarregados. Cota mínima 82% ou o contrato dobra.

Kaelen vestiu o tecido grosso. O núcleo HX-774 pulsava quente contra o esterno. Ele ativou pulso mínimo. O parasita respondeu com uma pontada que fez seus joelhos fraquejarem por um segundo. Vitalidade caiu para 57%.

A sirene soou. Luz vermelha banhou a primeira mech avariada.

Kaelen encostou a palma no casco frio e pensou:

Ela quer me matar amanhã. A Seita quer me usar como gatilho. E eu ainda tenho 41 horas para virar isso tudo.

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