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Chapter 8: O Mercado Negro de Artefatos

Kaelen desce ao mercado negro da Academia em busca de informações sobre a Seita Oculta. Negocia com Corvo Cinza, obtém confirmação de que a Seita drena 1,4% do éter coletivo dos cadetes endividados via parasitas sincronizados e que seu núcleo estabilizador é a chave primária do cofre. É emboscado por agentes de Valéria, escapa queimando vitalidade adicional e deixando rastro de assinatura. No corredor de acesso à zona de servidão compulsória, confirma a compatibilidade do núcleo com o cofre e percebe que a servidão de 48 horas é o gatilho do ritual maior. Recebe notícia de que Valéria perdeu o leilão e agora planeja destruí-lo no duelo público.

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O Mercado Negro de Artefatos

Kaelen saiu da Ala de Integridade com o contrato de servidão compulsória ardendo no implante do pulso esquerdo. O cronômetro interno já marcava 47 horas e 51 minutos restantes para cumprir as 48 horas na zona aberta — ou ver a dívida de sangue da família ser executada de vez. O núcleo estabilizador zumbia contra o parasita como dois corações brigando dentro do peito, e cada respiração ainda trazia o gosto metálico de éter queimado e sangue. Ele ignorou a placa vermelha de quarentena médica, virou à esquerda e seguiu direto para os elevadores de serviço. O corredor principal estava deserto; os cadetes de elite já tinham voltado para os pavilhões aquecidos. Só os endividados circulavam pelos túneis frios.

O elevador rangeu ao abrir. Kaelen entrou, apertou o botão sem placa — o -7. As portas se fecharam com estalo pneumático. A descida foi lenta, acompanhada pelo chiado de tubulações e pelo cheiro crescente de óleo velho e solda. Quando as portas se abriram, o ar mudou. Mais denso. Mais sujo. Luzes de néon azul e roxo piscavam em intervalos irregulares, transformando corredores de manutenção em vielas de comércio clandestino. Barracas improvisadas de lona e sucata vendiam frascos de éter bruto, fragmentos de núcleo rachado, registros roubados de auditoria, até contratos de servidão já assinados e revendidos.

Dois homens de jaqueta reforçada bloquearam o caminho logo na saída do elevador. Braços cruzados, implantes oculares brilhando vermelho baixo.

— Taxa de entrada — disse o da esquerda. — Dez pontos de Fluxo ou equivalente.

Kaelen abriu a palma da mão esquerda. Linha fina de código azul piscou na pele. — Não tenho Fluxo limpo. Tenho isto.

Ele projetou um fragmento de código de rastreamento do supressor modificado usado na auditoria — assinatura parcial, mas suficiente para identificar o equipamento de alta segurança da Ala de Integridade.

Os dois guardas trocaram olhares. O da direita assentiu uma vez.

— Corvo Cinza está esperando. Não demore.

Eles abriram passagem. Kaelen seguiu pelo beco principal, capuz baixo, sentindo os olhares das barracas. Chegou a uma porta reforçada com placas de titânio. Bateu duas vezes, pausa, uma vez mais. A porta deslizou.

Corvo Cinza estava sentado atrás de uma mesa riscada, capuz recuado o bastante para mostrar a cicatriz que dividia a sobrancelha até a têmpora. Não sorria.

— Quarenta e oito horas de manutenção pesada, calibre 7 ou superior, sem remuneração — disse ele, voz seca. — E você vem comprar segredos da Seita Oculta. Corajoso. Ou burro.

Kaelen colocou sobre a mesa as duas últimas moedas físicas de identificação da família — brasão quase apagado pelo uso. Pagamento simbólico. Pressão emocional.

— Não vim pedir crédito. Vim comprar fragmentos. Registros parciais. Qualquer coisa que diga onde guardam o artefato-mestre ou como os parasitas são sincronizados.

Corvo Cinza inclinou a cabeça.

— Isso custa mais do que brasões velhos.

— Eu sei.

Kaelen abriu a palma novamente. Desta vez projetou a localização aproximada da câmara onde instalara o núcleo estabilizador — coordenadas gerais, sem revelar que já o possuía.

O informante ficou em silêncio por longos segundos. Então deslizou um cristal de registro pela mesa.

— Sincronização parasitária confirmada. A Seita drena 1,4% do éter coletivo dos cadetes endividados. Converte em reserva para um ritual maior. Os parasitas estão calibrados para pico de drenagem durante a servidão compulsória na zona aberta. — Ele fez uma pausa. — E a servidão de 48 horas não é coincidência. É o caminho para o cofre.

Kaelen sentiu o estômago apertar. O cristal queimava contra a palma.

— Meu núcleo…?

— Tem assinatura compatível com a chave primária do cofre. HX-774. Protocolo Drenagem Coletiva. Se você entrar na zona aberta com ele ativo, o ritual pode usar você como gatilho principal.

Kaelen guardou o cristal no bolso interno. Levantou-se.

— Obrigado.

— Não me agradeça ainda — disse Corvo Cinza. — Eles já sabem que você esteve aqui.

Kaelen saiu da sala blindada com o cristal ardendo na mão. O prazo marcava 46 horas e 51 minutos. O corredor de saída era estreito, paredes cobertas de canos que pingavam condensação ácida. Luzes néon roxas e verdes pulsavam em ciclos estroboscópicos.

Dois vultos se materializaram no cruzamento à frente. Máscaras de ébano polido, olhos brancos opacos, mantos sem distintivo. Agentes de Valéria.

— Entrega o cristal — disse o da esquerda, voz modulada. — E o que mais tirou do Corvo. Agora.

Kaelen parou. Sentiu o peso do cristal no bolso.

— Vocês sabem que eu não carrego nada valioso. Sou só um endividado indo para manutenção de mech.

O da direita avançou um passo. Mão já na empunhadura de um supressor de éter portátil.

Kaelen queimou 4% adicional de vitalidade em uma explosão controlada. O núcleo estabilizador respondeu com pico súbito. Uma onda invisível de pressão estourou os dois supressores dos agentes ao mesmo tempo. Placas de circuito estalaram. Os homens cambalearam.

Kaelen girou, chutou o joelho do primeiro, que caiu com estalo seco. O segundo tentou sacar uma lâmina curta. Kaelen bloqueou com o antebraço, sentiu o osso ranger, mas usou o impulso para cravar o cotovelo na máscara. Plástico rachou. Sangue espirrou.

Ele correu.

Deixou um rastro de gotas vermelhas e um fragmento de sua assinatura de éter no ar. Prova física.

Kaelen tropeçava pelo corredor de acesso à zona de preparação da servidão compulsória, ombro colado na parede para não cair. O relógio marcava 46 horas e 12 minutos. Sangue escorria pelo canto da boca. Parou diante da placa enferrujada: ZONA DE PREPARAÇÃO – SERVIDÃO COMPULSÓRIA – NÍVEL -4.

Encostou a palma trêmula no leitor. Luz verde piscou. A porta rangeu ao abrir.

Dentro, espaço estreito iluminado por lâmpadas de emergência vermelhas. Kaelen deixou-se escorregar até sentar, costas na parede. Puxou o tablet confiscado de um dos agentes — tela rachada, mas funcional. Abriu o arquivo transferido por Corvo Cinza.

Assinatura de cofre detectada → Núcleo Estabilizador HX-774 / Chave Primária / Protocolo Drenagem Coletiva 1.4%

Ele leu três vezes. O 1,4% estava destacado em vermelho pulsante.

Forçou uma micro-pulsação do núcleo estabilizador. Uma linha de dados subiu pelo implante do pulso: compatibilidade 98,7%. O parasita reagiu com espasmo violento, acelerando a drenagem por um instante. Kaelen rangeu os dentes, segurou o impulso de gritar.

Confirmado. Ele era a chave.

A Seita Oculta estava drenando o éter de todos os cadetes endividados para alimentar um ritual maior. E a servidão compulsória de 48 horas na zona aberta era o momento exato em que o cofre se abriria — com ele como gatilho vivo.

O tablet vibrou. Mensagem criptografada sem remetente visível:

“Valéria perdeu o leilão de estabilizadores. Todo o lote foi para credores secundários. Ela jura te destruir no duelo público antes do reset. Prepare-se.”

Kaelen fechou os olhos. O parasita pulsava mais rápido. O núcleo estabilizador respondia em sincronia perfeita.

Ele não tinha mais 48 horas para sobreviver.

Tinha 48 horas para virar a chave contra eles.

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