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Chapter 7: A Auditoria de Sangue

Kaelen enfrenta a auditoria de integridade acelerada na Ala de Integridade. Usa o supressor modificado para mascarar o traço do núcleo estabilizador durante os ciclos de escaneamento. Dorn o pressiona verbalmente, ameaçando confiscar o mech e destruir sua família. Kaelen passa na auditoria, mas sua dívida é convertida em servidão compulsória na manutenção de mechs de calibração 7+ na zona aberta. No corredor, descobre que a Seita Oculta drena éter de cadetes endividados via parasitas sincronizados, expandindo a conspiração.

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A Auditoria de Sangue

Kaelen entrou na Ala de Integridade com o cronômetro interno cravado em 10h18min restantes. O núcleo estabilizador pulsava dentro do peito como uma segunda bomba-relógio. Cada batida enviava uma onda de calor ácido pelas costelas. A luz neon branca-azulada da Câmara de Escaneamento Nível 3 cortou seus olhos como lâminas frias.

Auditor Principal Dorn esperava no centro da plataforma circular, braços cruzados, expressão de quem já condenou antes de começar. Ao lado, a assistente Lira ajustava o tablet holográfico. Um guarda de lança de contenção mantinha a mão no cabo.

— Cadete Kaelen Voss. Posição oito. — Dorn falou sem emoção. — Três vitórias consecutivas no mesmo ciclo. Multiplicador 2,4×. Fluxo líquido atual: –38.912. Impressionante para quem entrou na temporada com –84.700 e um mech em quarentena parcial.

Kaelen parou no disco central. Os anéis de varredura giraram acima dele, zumbindo baixo nos ossos.

— Sente-se na cadeira de mapeamento — ordenou Lira.

As correias automáticas se fecharam nos pulsos e tornozelos. Apertadas o suficiente para lembrar: sem fuga lateral.

O primeiro ciclo começou. Uma onda gelada de éter varreu os meridianos. O núcleo estabilizador reagiu com um espasmo quente no esterno. No visor flutuante de Dorn, linhas subiram: picos residuais fora de qualquer técnica aprovada.

Lira franziu a testa.

— Assinatura anômala. Traço de conversão não-registrada. 0,7% acima da linha de fundo.

Dorn se aproximou.

— Continue.

Kaelen rangeu os dentes. Os dedos, presos pelas correias, roçaram o anel de supressão nível 4 modificado. Um clique quase inaudível. Uma pulsação fria desceu pelo braço e envolveu o núcleo como uma membrana.

O pico no visor tremeu, caiu para 0,3%, depois desapareceu.

Dorn bufou.

— Anomalia momentânea. Sobrecarga de combate, talvez. Mas não vou arriscar. Segundo ciclo: sondas neuronais.

As correias se abriram. O guarda empurrou Kaelen para a sala adjacente com força suficiente para o ombro bater na quina da bancada. A porta selou. Restavam 9h42min.

A sala de espera era pequena, fria, iluminada só pela luz azulada das grades. Dorn sentou-se à mesa de interrogatório, tablet flutuante à frente.

— Sente-se, cadete. Ou prefere ficar em pé sangrando no chão?

Kaelen sentou. O núcleo pulsava em sincronia com o coração sobrecarregado. O gosto de ferro subia na garganta.

Dorn girou o tablet. A tela mostrava os três picos anômalos do último duelo.

— Top-8 em menos de 48 horas. Como um endividado crônico faz isso sem estabilizador registrado?

— Treinamento. E um pouco de sorte.

Dorn riu seco.

— Sorte não deixa traços de conversão proibida. Eu sei que você comprou no leilão paralelo. Núcleo? Parasita modificado? Fale agora e talvez eu esqueça o segundo pico.

Uma mensagem fragmentada de Vane piscou na visão periférica:

“…sondas neuronais… traço vai aparecer… sobrecarregue o supressor… agora…”

Kaelen apertou o anel com força. Queimação subiu pelo braço até a nuca. O núcleo gritou dentro do peito — dor branca que fez os dentes rangerem.

Dorn continuou:

— Se eu confiscar seu mech para análise, você perde a zona aberta em 48 horas. Adeus Escada. Adeus família.

A palavra família acertou como lâmina. Kaelen viu os olhos fundos da mãe na última visita, a dívida de sangue ainda pendurada sobre eles.

— Não tenho nada a esconder.

O segundo ciclo começou. As sondas desceram como agulhas de luz fria. O supressor cedeu — o anel ficou quente, depois gelado. O núcleo se contorceu, mas o traço foi empurrado abaixo do limiar.

As sondas subiram.

Silêncio pesado.

— Limpo — murmurou Lira, surpresa.

Dorn fechou o tablet com estalo.

— Por enquanto. Sua dívida acaba de ser consolidada. — Ele projetou o contrato no ar. — Servidão compulsória na manutenção da zona aberta. Calibração 7+. Uptime 96%. Assinatura automática registrada.

Kaelen saiu da câmara com as pernas moles. Cambaleou até o corredor de manutenção Subnível 4. Ar grosso, cheiro de graxa queimada e ozônio. Luzes piscando fora de sequência.

Encostou na parede de aço corrugado e deslizou até o chão. O implante retinal abriu o contrato:

CONTRATO DE SERVIDÃO COMPULSÓRIA – MANUTENÇÃO MECÂNICA ZONA ABERTA Titular: Kaelen Voss Prazo: 48 horas Obrigação: Reparo e calibração contínua de unidades 7+ em ambiente hostil Remuneração: 0,00 Fluxo Penalidade: Confisco total de implantes + cancelamento vitalício da Escada Cláusula adicional: Vinculação imediata ao Núcleo de Conversão Parasitária

Kaelen abriu o log de drenagem. Linhas de fluxo apareciam — não só resíduo do núcleo. Um padrão repetitivo: fios minúsculos de éter sendo puxados para fora dele… e de centenas de outros cadetes endividados.

O implante confirmou em vermelho:

Fluxo desviado: origem — Seita Oculta. Coleta coletiva via parasitas sincronizados. Volume atual: 1,4% do total da base de cadetes.

Kaelen fechou os olhos. Sangue negro escorreu do canto da boca e pingou no chão metálico. A auditoria tinha passado. Mas os auditores — ou quem os movia — já tinham encontrado o rastro proibido nos implantes. E agora ele sabia: não era só ele. Era todos.

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