A Armadilha de Cristal
O ar no Setor de Manutenção tinha o gosto metálico de ozônio e sangue queimado. Kaelen deslizava pelas sombras, sentindo a energia violeta da Conversão de Escassez vibrar sob sua pele como um parasita faminto. Cada passo era um cálculo: a técnica não apenas consumia a dívida latente, mas reescrevia a temperatura de seu sangue, deixando um rastro térmico que a segurança da Academia não demoraria a rastrear.
Lívia surgiu de trás de um duto de ventilação, o rosto pálido iluminado pelo brilho intermitente de um cristal de dados. Ela não perdeu tempo com gentilezas.
— A besta na arena não estava apenas caçando, Kaelen. Ela estava sintonizada com a sua assinatura específica. Alguém na cúpula ajustou os sensores de alvo para você.
Kaelen jogou um fragmento de metal contorcido aos pés dela. Era o mecanismo de disparo que ele arrancara da armadilha de Valerius. O metal ainda emitia uma ressonância sutil, uma frequência que ele reconheceu como a assinatura de Mestre Elian.
— Não foi uma falha de segurança — sibilou Kaelen, a voz rouca. — Foi uma execução. Elian sintonizou o sistema com a minha técnica. Ele sabia exatamente o que eu estava usando.
Lívia tocou o fragmento, seus dedos tremendo. A evidência era irrefutável: o mentor de Kaelen era o informante que sustentava a tirania de Valerius.
— Se você for pego com isso, a administração não vai apenas te expulsar — disse ela, a voz baixa. — Eles vão te apagar.
Kaelen não respondeu. Ele precisava retornar ao Nível Médio. A Galeria de Artefatos, onde a armadilha original de Valerius aguardava, era o seu novo palco. Ele movia-se entre as prateleiras de cristal, cada passo uma aposta contra os sensores térmicos. Ao encontrar o dispositivo — um mecanismo intrincado de latão e filamentos de prata — ele sentiu o peso da intenção de Valerius. Não era uma armadilha de humilhação; era um selo de sucção de essência, projetado para drenar o núcleo do alvo até a falência orgânica.
— Tão previsível — murmurou Kaelen.
Ele começou a reconfigurar o fluxo. Usando a Conversão de Escassez, injetou sua energia violeta nos filamentos. O metal sugava sua vitalidade, mas a cada gota, a armadilha tornava-se um barril de pólvora instável.
Ao sair da galeria, Valerius bloqueou o corredor, ocupando o espaço com a arrogância de quem nunca conheceu a escassez.
— Você está atrasado para a sua própria queda, Kaelen. A academia corrigirá esse erro de cálculo hoje.
Kaelen sentiu o Qi denso de Valerius, mas não recuou.
— Tão ansioso para se livrar de mim que esqueceu de verificar o terreno? A armadilha na Galeria não é minha, Valerius. É a sua assinatura.
Valerius riu, invadindo o espaço pessoal de Kaelen. — Você é uma falha que precisa ser corrigida.
Kaelen o provocou até que o rival retornasse à Galeria, confiante em sua própria armadilha. Dentro da câmara, Valerius ativou o Dispositivo de Sincronia. Em vez de paralisar Kaelen, a sabotagem entrou em sobrecarga. O dispositivo inverteu o fluxo, extraindo a energia do próprio Valerius com uma violência catastrófica.
O som de metal retorcido e a explosão de essência violeta ecoaram pela galeria. Quando a poeira baixou, Valerius estava caído, ferido pela própria arma. O alarme da Academia começou a soar. A cúpula estava chegando. Kaelen viu o pavor nos olhos de Valerius ao perceber que a armadilha fora desenhada para colapsar o sistema de cultivo de qualquer um que a tocasse.
Kaelen sobreviveu, mas o custo era claro: a destruição da galeria atraiu a administração, marcando-o oficialmente como uma anomalia perigosa. O conselho estava a caminho, e ao expor a corrupção de Valerius, Kaelen acabara de colocar um alvo ainda maior em suas próprias costas.