A Escada Revelada
O balcão de mármore do Centro de Registro parecia uma guilhotina. Kaelen deslizou sua ficha de vitória sobre a pedra fria; o metal ainda vibrava com o calor residual do duelo. O funcionário, um homem de olhos opacos como vidro, nem se dignou a tocar no objeto.
— O sistema não reconhece sua ascensão, Kaelen — a voz do homem arrastava-se, desprovida de humanidade. — Há uma trava administrativa. Seu saldo de essência está em quarentena.
Kaelen sentiu o sangue pulsar. O Nível Médio era sua única rota de sobrevivência; sem os núcleos de essência purificada daquela ala, a técnica de Conversão de Escassez começaria a devorar sua própria vitalidade em vez da dívida.
— Minha vitória foi legítima. O placar da arena confirmou o ponto — Kaelen retrucou, a voz firme apesar do suor frio. A assinatura violeta de sua técnica ainda ardia em sua memória, um estigma que ele temia ser visível aos sensores da Academia.
O funcionário apontou para o terminal. — A Academia valoriza o mérito, mas a ordem é a base do ranking. Valerius, patrocinador do ciclo, exerceu seu direito de revisão. Ele alega que seu estilo de luta é ‘instável’. Você tem vinte e quatro horas para se qualificar via ‘Leilão de Desafios’, ou será rebaixado permanentemente.
Kaelen saiu com o peso do bloqueio cravado em cada passo. O corredor da Passarela de Acesso rangia, um som metálico que ecoava o vazio em seu estômago. Valerius não estava apenas brincando de ser o dono da Academia; ele estava estrangulando o suprimento de Kaelen.
— Você cheira a ozônio e desespero, Kaelen. Uma combinação cara para quem mal tem crédito para o almoço — a voz de Lívia cortou o ar. Ela surgiu das sombras, os olhos fixos na assinatura residual violeta que emanava de suas mãos.
— Se veio cobrar a dívida, perdeu seu tempo. O que eu tinha foi confiscado — respondeu Kaelen, sem parar.
Lívia invadiu seu espaço. — Valerius é apenas o braço financeiro do ‘Círculo de Prata’. Eles controlam o fornecimento de núcleos de alta pureza. O bloqueio não é burocracia; é um ritual de abate. Eles precisam que você use a técnica proibida no Leilão. Se você converter sua dívida lá, os monitores terão a prova visual necessária para sua expulsão imediata. Se não aceitar, você estagna até a morte.
Kaelen parou. O leilão era uma armadilha cirúrgica. — Então, como contornamos o mercado deles?
— Nós não contornamos — Lívia sorriu, um gesto frio. — Nós subimos o preço do seu próprio risco.
Na Arena de Leilões, o sino de bronze tocou três vezes. Valerius estava na tribuna superior. Quando os Núcleos de Essência Estelar surgiram no holograma, o preço disparou. Valerius lançou um olhar de escárnio. — Dez mil créditos. Alguma oferta, Kaelen? Ou vai continuar sendo a nota de rodapé desta turma?
Kaelen tocou o cristal de oferta e ativou a Conversão. A dor foi imediata, uma drenagem que transformou seu débito em uma assinatura de energia tão intensa que os monitores da Arena começaram a apitar. Ele não comprou os núcleos com dinheiro; ele os comprou com a promessa de uma destruição que Valerius não poderia conter.
O martelo bateu. O lote era dele. Mas, enquanto o fluxo de Qi, violento e quente, rompia seus meridianos, Kaelen viu o instrutor Vane no canto da arena, trocando olhares com a segurança. Ele agora tinha o recurso, mas a caçada apenas começara. A verdadeira face do informante da cúpula, alguém em quem Kaelen confiava, estava prestes a ser revelada.