Ascensão Inesperada
A dor não era apenas um sintoma; era a assinatura do Núcleo de Plasma Estável fundindo-se à estrutura do Sucata-09. Kaelen Vane despertou com o gosto de cobre na boca, o corpo vibrando em uma frequência que não lhe pertencia. No canto do cubículo, o mech emitia um zumbido instável, uma luz azulada e doentia vazando pelas soldas mal acabadas.
O holograma da Academia projetou-se sobre o catre, cortando o ar com uma precisão cirúrgica:
“Aviso de Sistema: Ciclo de Ranking encerrado. Reset global da Escada ativado. Nova prova de qualificação em 24 horas. Assinaturas energéticas não conformes serão purgadas.”
Kaelen encarou o contador de dívida: 4.892.000 Créditos-Tempo. O número, antes um lembrete de sua ascensão, agora era uma sentença de morte. O sistema não apenas resetara seu ranking; ele o tornara um alvo. A porta da oficina rangeu, revelando Mestre Thorne. O mentor não trazia conselhos, apenas a frieza de quem observa uma experiência de laboratório.
— Eles sabem, Vane — disse Thorne, os olhos fixos no núcleo vazando radiação. — O reset não foi um erro. Foi uma busca ativa por anomalias. Se você não provar que esse núcleo é estável antes do pôr do sol, a Academia não vai apenas te expulsar. Eles vão confiscar o Sucata-09 e deixar você definhar na dívida até que seu tempo expire.
— Eu não vou ser expurgado — Kaelen levantou-se, sentindo cada nervo protestar contra a radiação residual. — Eles querem um ranking? Vou dar a eles um que destrua a hierarquia que eles tanto protegem.
Horas depois, o Campo de Provas fervilhava. O cronômetro marcava 23 horas e 47 minutos. O ar estava carregado com o cheiro de ozônio e o desdém da elite. Soraia Valente observava do pódio central, seu mech prateado brilhando sob as luzes da arena. Ela não precisava de palavras; sua presença era a barreira que Kaelen precisava romper.
— Cadetes, o teste de resistência começa agora — a voz de Thorne ecoou pela arena. — Sobrevivam aos ciclos de sobrecarga. O ranking será definido pela eficiência energética sob estresse absoluto.
O teste iniciou com uma descarga de energia estática que fez o solo tremer. Kaelen conectou-se ao Sucata-09. A dor da integração foi imediata, mas ele a usou como âncora. Quando o primeiro pulso de sobrecarga atingiu o mech, o núcleo militar rugiu. O Sucata-09 não apenas resistiu; ele absorveu a energia, convertendo o choque em potência bruta.
Soraia, percebendo a anomalia, disparou um pulso de interferência, tentando desestabilizar a assinatura de Kaelen. Ele não recuou. Canalizou a dor da radiação para estabilizar o fluxo do núcleo, transformando seu próprio corpo em um filtro biológico. O Sucata-09 tornou-se um borrão de metal e plasma. O recorde de resistência foi quebrado em segundos. O nome de Kaelen saltou para o topo do painel, mas o custo foi um alerta crítico de colapso térmico.
Soraia desceu para a arena, o mech prateado bloqueando a saída de Kaelen.
— Fraude — ela transmitiu, a voz fria cortando o canal aberto. — Vou expor o que você esconde sob essa carcaça.
O duelo foi um caos de faíscas. A cada colisão, o Sucata-09 gemia sob a pressão. No ápice do confronto, o sistema da Academia, detectando a instabilidade crítica de ambos os mechs, forçou uma intervenção de emergência. Um empate técnico. A fumaça cobriu a arena, escondendo o estado deplorável do núcleo de Kaelen por apenas alguns segundos.
Thorne surgiu, sua voz cortando o alvoroço dos cadetes. — O ranking será resetado novamente ao final do dia. O que fizeram hoje é irrelevante para o que vem a seguir. A purga apenas começou.
Kaelen, exausto, percebeu a verdade: o empate não era uma vitória. Era um convite para uma audiência disciplinar onde o verdadeiro preço de sua ascensão seria cobrado. O próximo degrau da escada não era apenas mais alto; era uma armadilha.