Duelo de Elite
O ar no hangar cheirava a ozônio e desespero. Kaelen Vane sentia o zumbido do Núcleo de Plasma Estável vibrando diretamente em seus ossos, uma ressonância que não era apenas mecânica, mas biológica. O contador holográfico na parede, projetado em um vermelho agressivo, marcava 23:47:12. O Reset da Escada não era apenas uma purga de ranking; era um cronômetro de execução para qualquer um que não conseguisse provar sua utilidade imediata à Academia.
Soraia Valente não bateu. Ela entrou com a elegância de quem não precisa de permissão, seus olhos de aço varrendo a carcaça do Sucata-09. O brilho azulado do núcleo, vazando radiação através das juntas mal vedadas, era uma confissão de culpa que ela não perderia a chance de usar.
— Você forçou o limite e sobreviveu, Vane — a voz dela era um corte preciso. — O sistema detectou a assinatura. Esse núcleo é militar, proibido. Se eu enviar esses logs para o Conselho agora, você não verá a próxima prova de qualificação. Você será purgado antes do amanhecer.
Kaelen se levantou, ignorando a dor lancinante em seu braço direito, onde a radiação havia deixado marcas de queimadura química. Ele não tinha nada a perder, e Soraia sabia disso.
— Então por que ainda está aqui? — ele perguntou, a voz rouca. — Você quer o meu lugar ou quer ver o sistema queimar?
Ela não respondeu com palavras. Ela estendeu um convite digital: Arena de Provas, Duelo Privado. Sem testemunhas, sem registros públicos imediatos, apenas a verdade técnica entre dois mechs. Era uma armadilha, mas também uma saída.
Na arena, o silêncio era absoluto. O Sucata-09 gemia sob o assento de Kaelen, o metal rangendo sob a pressão do núcleo instável. Soraia, em seu modelo de elite, movia-se como uma extensão da própria máquina. Ela não atacou de imediato; ela esperava o colapso térmico que Kaelen tentava esconder. Quando a lâmina térmica dela cortou o ar a milímetros do cockpit, Kaelen não recuou. Ele forçou o núcleo a descarregar o excedente de energia diretamente nos propulsores dorsais. O Sucata-09 rugiu, uma descarga de radiação azulada que distorceu a gravidade da arena. O sistema de segurança da Academia interveio, disparando travas de emergência que imobilizaram ambos os mechs antes que a sobrecarga destruísse os ativos.
Ambos desceram de seus cockpits, cobertos de fuligem. Soraia olhou para ele, o brilho frio em seus olhos dando lugar a uma compreensão sombria.
— Você usou seu próprio corpo como filtro biológico — ela murmurou, a voz rouca. — Ninguém sobrevive a isso sem consequências permanentes. Por que se arriscar tanto por uma carcaça?
— Porque a escassez não é um veredito, Soraia. É uma alavanca — respondeu Kaelen, o sangue escorrendo pelo canto da boca.
Soraia hesitou. Ela não entregou os logs, mas o aviso ficou no ar: o próximo ciclo de classificação seria o fim para ambos se não descobrissem a verdade por trás da purga. Kaelen, determinado a encontrar a falha no sistema, dirigiu-se aos terminais de purga no subsolo. Com as credenciais de Thorne, ele invadiu os registros de manutenção. O que encontrou, porém, foi uma lista de 'ativos descartáveis'. No topo, datado de quinze anos atrás, estava o nome de seu pai: Elias Vane. A dívida de sua família não era um erro; era um projeto arquitetado para colher a energia biológica dos cadetes. A ascensão de Kaelen não era apenas uma questão de sobrevivência, mas de vingança contra uma máquina que se alimentava de sua própria linhagem.