Mercado de Risco
O ar no subsolo do Mercado de Provas não era apenas rarefeito; era saturado com a radiação de núcleos de energia instáveis e o cheiro acre de desespero industrial. Kaelen Vane ajustou o colarinho, sentindo o peso do chip de acesso que Thorne lhe entregara como um bilhete de loteria premiado em um necrotério. O holograma rubro na parede oposta marcava o ritmo de sua agonia: 4.892.000 Créditos-Tempo. Faltavam 48 horas para o ciclo de ranking. Se ele não estivesse no topo da pirâmide até lá, sua assinatura biológica seria extraída para pagar o saldo.
O Sucata-09, escondido no hangar, era uma carcaça em colapso térmico. Sem um núcleo de grau militar para estabilizar a geometria impossível do motor, a máquina não passaria da primeira fase do Torneio de Ascensão. Ele precisava daquela peça.
— Vane, o sucateiro. — A voz de um emissário da família Valente cortou o burburinho. O homem, cujos trajes de seda sintética pareciam uma ofensa à imundície do local, bloqueou seu caminho. — O leilão de tecnologia de ponta não é para quem ainda tem óleo de graxa sob as unhas. Perdeu-se no caminho para o lixão?
Kaelen não recuou. Seus olhos varreram o salão até travarem no centro da plataforma de exibição: um Núcleo de Plasma Estável, classe militar, pulsando com uma luz azulada que prometia a potência necessária para sustentar sua técnica proibida. Era a única saída.
— Apenas observando a concorrência, Valente — respondeu Kaelen, sua voz fria. — Pelo visto, a linhagem Valente também está desesperada por peças de segunda mão para manter a fachada de perfeição.
O leiloeiro, um homem cujos olhos mecânicos giravam em busca de lucro, deu início ao processo. O preço disparou. Kaelen apertava o cartão de crédito-Tempo que Thorne lhe dera: 1.200.000 créditos, o limite de sua sobrevivência. Quando Soraia Valente surgiu no salão, a atmosfera mudou. Ela não precisava de cartões; ela simplesmente falava, sua voz clara e desprovida de hesitação. A cada lance dela, Kaelen sentia o relógio da dívida em sua visão periférica acelerar o ritmo de sua própria obsolescência.
— Um milhão e duzentos — declarou Soraia, seus olhos encontrando os de Kaelen com uma crueldade calculada. Ela sabia da instabilidade do núcleo. — O item é uma bomba-relógio, Vane. Se você instalá-lo, o recuo térmico vai fritar seu sistema nervoso antes mesmo de você chegar à arena. Por que se apressar para a própria execução?
Kaelen sentiu o suor frio escorrer por suas costas. Ele não tinha mais créditos. Tinha apenas o contrato assinado com Thorne e a própria posição no ranking, um ativo que o sistema tratava como moeda conversível em situações de desespero absoluto.
— Então é uma aposta justa — retrucou Kaelen. Ele se virou para o leiloeiro, ignorando o olhar de aviso de Soraia. — Incluo minha posição atual no ranking como garantia adicional. O leiloeiro hesitou, mas a cobiça superou a prudência. O martelo bateu. A vitória veio com um gosto de metal e sangue: o núcleo era seu, mas o custo o deixava em uma vulnerabilidade extrema.
Ao sair do salão, Kaelen sentiu o peso do artefato em sua mochila. Não era apenas físico; era uma sentença de morte. Enquanto atravessava os corredores de metal escovado, o som de passos metódicos atrás dele confirmou seus piores temores. Colecionadores da elite, atraídos pelo brilho da assinatura energética, o seguiam como lobos. O núcleo, instável e vazando radiação, zumbia contra sua coluna.
Ele forçou o passo, entrando na ala dos dormitórios de baixa prioridade. Ao trancar a porta, o silêncio do aposento foi quebrado pelo chiado agudo do núcleo. A radiação azulada começava a vazar pelas costuras da mochila, iluminando o quarto com uma luz doentia. Ele tinha o recurso, mas agora estava isolado com um artefato que podia matá-lo ou salvá-lo, enquanto o relógio da dívida, implacável, marcava o tempo que lhe restava antes da inspeção final.