A Proposta de Thorne
O ar na Oficina 4-B tinha gosto de ozônio e metal queimado. Kaelen Vane limpou o suor da testa com o antebraço, deixando um rastro de graxa preta. O Sucata-09, ainda estalando com o resfriamento forçado após o duelo contra Jaxon, parecia um animal ferido. O componente proibido, uma peça de geometria impossível, pulsava no núcleo do motor com uma luz azulada e doentia, drenando a energia do ar como um parasita faminto.
— Você está brincando com uma sentença de morte, Vane — a voz de Soraia Valente ecoou, fria e precisa. Ela estava parada na entrada, impecável em seu uniforme de elite, os braços cruzados. — O motor não vai aguentar outro ciclo de estresse. E eu tenho a prova digital da sua transação no mercado negro. Uma palavra minha para o Conselho, e sua assinatura biológica será confiscada antes do amanhecer.
Kaelen não se virou. Ele apertou um parafuso de alta precisão, sentindo o calor residual irradiar do chassi. A dívida de 4.892.000 Créditos-Tempo pesava em sua mente como uma âncora.
— Se você quisesse me destruir, já teria feito — Kaelen respondeu, finalmente encarando-a. — Você não está aqui pela justiça da Academia. Você está aqui porque a sua linhagem é uma estrutura de vidro e qualquer auditoria profunda sobre suas operações a estilhaçaria. Você precisa de alguém que possa ser descartado se as coisas derem errado.
Soraia hesitou. O medo, oculto sob camadas de arrogância, brilhou em seus olhos.
— O ranking está mudando, Vane. Se você for desqualificado, a dívida é confiscada. Se subir, torna-se uma variável que eu posso controlar. Guarde o componente, mas saiba: se falhar, não serei eu quem virá buscar o que resta de você.
Ela saiu, deixando o silêncio pesado. Kaelen sabia que a chantagem dela era apenas o prelúdio. O verdadeiro peso o aguardava no Arquivo Subterrâneo.
O local cheirava a poeira secular. Mestre Thorne observava um holograma do Sucata-09, cujos sistemas térmicos piscavam em vermelho intermitente.
— O motor está gritando, Vane — disse Thorne, sem se virar. — Aquela geometria é um parasita. Ela está drenando sua assinatura biológica para compensar a ineficiência do chassi. Você tem 48 horas antes que a dívida transforme seu corpo em um ativo liquidável.
Kaelen apertou os punhos.
— Eu não vim aqui por um diagnóstico. Vim pelo convite.
Thorne girou a cadeira, os olhos frios como aço temperado. Ele projetou o emblema do Torneio de Ascensão.
— O Torneio é o único lugar onde tecnologia não autorizada pode ser legalizada. Mas o custo não é em créditos. Você será meu agente de caos. Precisamos derrubar a elite que mantém o ranking estagnado. Os outros que tentei moldar foram descartados pelo sistema. Ou por mim.
De volta ao hangar, Kaelen instalou o estabilizador de classe A, obtido ao custo de suas últimas rações. O zumbido do motor tornou-se mais profundo, mais perigoso. O terminal da Academia exibiu o contrato do Torneio. Ao aceitar, seus olhos travaram em uma cláusula oculta: Em caso de falha ou desqualificação técnica, a assinatura biológica do cadete será imediatamente confiscada para liquidação de dívida.
Execução pública. Era o preço da ascensão. Kaelen tocou o botão de aceitação. O contrato foi selado. O Hangar 09 pareceu encolher ao seu redor. Ele era agora um peão com uma lâmina oculta, pronto para implodir o tabuleiro, ciente de que, no próximo degrau da escada, não havia espaço para erros.