Arena de Aço
O ar na Arena de Testes da Academia de Ferro tinha gosto de ozônio e desespero. Kaelen Vane ajustou os controles do Sucata-09, sentindo a vibração irregular do motor através das luvas gastas. O contador de dívida, projetado em neon vermelho sobre a parede de concreto bruto, piscava impiedoso: 4.892.000 Créditos-Tempo. Faltavam 48 horas para o fechamento do ciclo de ranking. Se ele não subisse hoje, sua assinatura biológica seria confiscada para pagar os juros da família.
Nas arquibancadas de mármore, a elite observava com o desdém de quem nunca sentiu a fome de um cultivador tardio. Soraia Valente estava no centro do camarote, seus olhos como lâminas de obsidiana fixos em Kaelen. Ela não apenas observava; ela esperava o erro que lhe daria o pretexto para destruí-lo.
— O sucateiro vai tentar algo patético hoje? — a voz de Jaxon, um cadete de linhagem, ecoou pelos alto-falantes. Seu Vanguarda, um mech de classe B reluzente, avançou com uma lança térmica girando em um arco de destruição.
Kaelen não respondeu. Ele sentiu o peso do estabilizador de classe A, instalado sob o chassi, contendo a energia bruta do componente proibido. Quando a lança de Jaxon cortou o ar, Kaelen não bloqueou. Ele sobrecarregou o núcleo. O Sucata-09 emitiu um guincho metálico, lançando-se para frente com uma velocidade que desafiava a física de sua classe. O impacto foi preciso: um golpe seco na junta de exaustão do Vanguarda. O gigante de elite tombou, e o sistema da Academia, incapaz de negar a eficiência técnica, registrou a vitória. O ranking de Kaelen subiu, mas o custo foi imediato: o motor do Sucata-09 entrou em colapso térmico, soltando uma nuvem de fumaça acre.
Ao descer da plataforma, Soraia bloqueou seu caminho.
— Desista da próxima fase, Kaelen — ela sibilou, a voz baixa o suficiente para não ser ouvida pelos guardas. — O uso desse componente proibido é um bilhete só de ida para o exílio. Não teste minha paciência.
Kaelen limpou o sangue do lábio, sentindo a vibração do núcleo ainda em seus ossos.
— Você não quer me salvar — Kaelen sorriu, o pulso firme. — Você precisa que eu suma antes que auditem a sua linhagem. Se eu cair, a sua negligência na gestão dos recursos da Elite vem junto.
Soraia deu um passo à frente, a aura de opressão forçando o ar ao redor de Kaelen a vibrar, mas ela não ousou atacar. Ele a deixou ali e seguiu para seus alojamentos.
O ambiente em seus aposentos era viciado, com cheiro de graxa queimada. Ele jogou a chave inglesa sobre a bancada, mas parou ao notar algo sobre o diagrama do componente proibido. Um envelope de couro sintético, selado com uma cera de sangue que brilhava com uma iridescência artificial, estava posicionado ali. O brasão da administração da Academia. Mestre Thorne.
Ao romper o lacre, o cheiro de combustível de alta octanagem invadiu o quarto. O convite era um chamado para o Torneio de Ascensão. Thorne não apenas sabia do componente proibido; ele estava oferecendo a Kaelen a chance de legalizá-lo — desde que ele vencesse a próxima purga. Kaelen compreendeu a verdade com um nó na garganta: Thorne não era um mentor, era um incendiário, e ele via em Kaelen a arma perfeita para implodir o sistema. Sem escolha, Kaelen aceitou o jogo. Mas, ao olhar para o relógio da dívida, ele percebeu que o próximo degrau da escada exigia algo mais do que apenas a máquina: exigia sua própria assinatura biológica como aposta final.