A rede de dívidas
O tilintar dos talheres de prata contra a porcelana chinesa soava como uma contagem regressiva artificial na sala de jantar dos Albuquerque. Beatriz sentia o peso da pulseira de ouro no pulso, um acessório que, por um momento de pânico, ela imaginou vibrar com a mesma frequência do hardware que Lucas carregava. O cronômetro em seu celular, escondido sob a toalha de linho, marcava 44:52:12. O tempo não parava, e a culpa, um ácido lento, corroía sua compostura.
— Você parece distante, Beatriz — a voz de seu pai, o patriarca, cortou o silêncio com a precisão de um bisturi. Ele não olhou para ela; mantinha os olhos fixos na carne malpassada, o corte impecável refletindo a luz fria do lustre de cristal. — O arquivo central sofreu uma oscilação crítica esta noite. A segurança informou que dados sensíveis foram acessados. Curiosamente, o protocolo de autodestruição foi acionado por um terminal remoto com suas credenciais.
Beatriz sentiu o estômago despencar. O ar na mansão, sempre carregado com o aroma de lírios e incenso litúrgico, parecia rarefeito. Ela limpou os lábios com o guardanapo, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos. — A rede tem apresentado instabilidades desde o último ajuste de saldo, pai. Talvez tenha sido apenas um erro de redundância no sistema — ela respondeu, a voz firme, embora suas mãos, sob a mesa, estivessem cerradas até os nós dos dedos embranquecerem.
O patriarca finalmente ergueu o olhar. Seus olhos eram dois poços de uma autoridade que não admitia falhas. — A redundância não apaga registros de liquidação, Beatriz. A negligência, sim.
Beatriz retirou-se sob o pretexto de uma enxaqueca, mas assim que a porta de seu quarto travou, a fachada desmoronou. Ela correu para o terminal oculto atrás do painel de carvalho. O sistema estava em alerta máximo; Lucas havia tentado extrair a lista de liquidação, e o nó de segurança da rede, sob o controle de Beatriz como administradora do ciclo, exigia uma autorização para conter o acesso não autorizado à oficina. Se ela negasse, a polícia local chegaria à oficina em minutos. Se autorizasse, ela cimentaria a armadilha que levaria Lucas à implosão.
Com dedos trêmulos, ela digitou o comando de desvio. O sistema exigiu uma "taxa de processamento". Para proteger Lucas sem levantar suspeitas diretas, ela precisou sacrificar a energia de um setor inteiro da cidade, criando um apagão local. Ao manipular os nós da rede, o cronômetro oscilou, e ela percebeu horrorizada que Lucas não estava apenas hackeando; ele estava tentando decifrar o código da relíquia. Ela tomou a decisão: sabotar o nó principal, ganhando tempo para ele, mas expondo-se à vigilância interna.
Enquanto o apagão mergulhava a mansão em sombras, Lucas, na oficina, observava o feed de segurança que ele havia invadido. A tela do seu monitor, iluminada apenas pelo brilho vermelho do cronômetro — agora em 45:00:00 — trouxe a imagem nítida de Beatriz no corredor da ala oeste. Ele viu a precisão com que ela inseriu o código de apagamento total. Não era hesitação, nem erro. Era uma execução fria.
Lucas sentiu o sangue gelar. Ele não estava sendo protegido por uma aliada; estava sendo gerido por uma administradora do sistema. O "código" que ele tentava hackear, ao ser cruzado com os dados que Beatriz tentara apagar, revelou sua verdadeira face: não era uma maldição, mas um software de drenagem bancária que usava a vida dos portadores como lastro para a riqueza da elite. Beatriz não era a salvação; ela era a chave do cofre que ele estava prestes a abrir, e agora, ela sabia que ele a via.