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Chapter 3: O livro-razão de sangue

Lucas e Beatriz invadem o arquivo da família Albuquerque. Lucas descobre que a 'maldição' é um sistema de mineração de dados que sacrifica vidas para manter a riqueza da elite, e que a próxima vítima é alguém que ele jurou proteger. A tentativa de extrair provas resulta na destruição do servidor por Beatriz, deixando Lucas sem evidências e com o cronômetro acelerado para 45 horas.

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O livro-razão de sangue

O zumbido da relíquia no bolso de Lucas não era apenas um som; era uma frequência que lhe roía os dentes. O ar na ala administrativa da mansão dos Albuquerque cheirava a incenso de sândalo e ozônio queimado — o perfume da elite de São Bento, onde a fé servia apenas para lubrificar as engrenagens da exploração. No pulso de Lucas, o cronômetro digital brilhava sob a pele, um lembrete subcutâneo de que ele estava ficando sem tempo: 47:58:12.

— Se a segurança detectar essa intrusão, não haverá dízimo que nos salve — Beatriz sussurrou, as mãos trêmulas enquanto digitava o código no painel biométrico. Ela não olhava para ele; olhava para as câmeras, como se esperasse que o próprio ar a denunciasse.

— Sua família já nos apagou quando escolheu o lado de quem dita o preço do sofrimento — Lucas retrucou, a voz cortante. Ele não queria a piedade dela, queria o acesso. — Conecte o terminal. Agora.

Beatriz hesitou, mas a pressão do cronômetro era um peso físico que ela não podia ignorar. Ela inseriu o cabo da relíquia na porta USB oculta sob o mogno. O cronômetro holográfico saltou para a vida, uma luz azul gélida que revelou a verdade: o sistema não era um oráculo, era um script de mineração de dados que convertia a angústia coletiva em ativos financeiros.

Lucas navegou pelo diretório. O arquivo de transações não listava orações, mas liquidações. O nome de sua irmã estava lá, datado da semana em que ela desapareceu. O sistema não a punira por um pecado; ele a consumira como processador humano para validar a riqueza daquela linhagem. O cronômetro saltou para 47:12:04. A cada megabyte extraído, a relíquia drenava sua energia vital.

Ele abriu a pasta 'Próximos Ajustes'. O cursor parou sobre um nome: a vizinha de sua irmã, uma menina que ele jurara proteger. O status estava marcado como 'pendente'.

— Eles não estão minerando dados, Beatriz — Lucas disse, a voz desprovida de qualquer emoção humana. — Eles estão escolhendo quem morre para que o servidor continue rodando.

O alarme da mansão ecoou, um som grave que vibrou nos ossos. A segurança da elite havia desbloqueado a ala leste.

— Eles nos pegaram! — Beatriz gritou, empurrando Lucas para longe do console. Na confusão, o hardware da relíquia foi arrancado, deixando Lucas com um emaranhado de fios expostos. Ele foi forçado a abandonar a unidade de processamento principal para escapar pelo duto de ventilação, sentindo o peso da perda de evidências como uma facada no estômago.

Ao emergirem nos jardins, o ar frio da noite não trouxe alívio. Lucas conectou o pendrive que Beatriz lhe entregara a um leitor portátil. A tela brilhou, mas o arquivo estava corrompido, ilegível. Ele olhou para Beatriz, o terror crescendo em seu peito. No monitor de vigilância que ele hackeara, ele viu a imagem de Beatriz, minutos antes, digitando um comando de 'delete' no servidor principal enquanto ele estava distraído com a lista de alvos.

O cronômetro em seu pulso marcou 45:00:00. O tempo havia encurtado, e sua única aliada acabara de apagar a única prova documental que ele tinha. Ele estava sozinho, marcado, e o relógio não parava de correr.

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