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Chapter 5: Código em ritual

Lucas confronta Beatriz após descobrir que a relíquia é um terminal de drenagem bancária. Ele inicia o hackeamento do sistema, o que acelera o cronômetro e dispara um alarme na rede da elite da cidade, transformando-o no alvo principal da liquidação.

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Código em ritual

O cronômetro na lateral de bronze da relíquia marcava 44:58:12. O brilho vermelho não era apenas um contador; era um pulso, uma contagem regressiva que parecia drenar o calor do ar na oficina. Lucas observava o visor enquanto o bisturi de precisão, em sua mão, refletia a luz fria do microscópio. Ele não estava mais restaurando uma antiguidade; estava operando um terminal de drenagem bancária disfarçado de fetiche religioso.

Beatriz apareceu na penumbra da porta, o rosto pálido, a postura rígida de quem carrega um segredo que a está sufocando. Ela não precisava dizer nada. A imagem que Lucas vira no feed de vigilância — ela apagando os registros de liquidação no arquivo dos Albuquerque — ainda queimava em sua mente como uma ferida aberta.

— Você sabia — disse Lucas, sem desviar o olhar do chip de silício que ele acabara de expor sob a pátina de ferro. — Não era uma maldição. Era um script de mineração de dados. Minha irmã, as famílias do bairro… todos vocês usaram a fé como lastro para uma drenagem bancária industrial.

Beatriz deu um passo à frente, as mãos trêmulas. — Lucas, pare. Se você acessar o núcleo, o sistema vai identificar a intrusão. O cronômetro não é um aviso, é uma trava de segurança. Se ele chegar a zero, a liquidação não é apenas financeira. É física.

Lucas soltou uma risada seca, o som ecoando entre as paredes de pedra. Ele conectou o cabo de fibra ótica ao terminal oculto. O cronômetro saltou imediatamente para 44:30:00. O sistema reagia à sua presença, punindo-o pela curiosidade.

— Você é a administradora, Beatriz. Você não está tentando me salvar. Você está tentando manter o servidor online.

Na tela do laptop, linhas de código começaram a rolar. Não era latim litúrgico, mas uma sintaxe de rede bancária distorcida por glifos arcaicos. O sistema de dívida espiritual era um software de drenagem que utilizava a energia vital dos portadores como lastro para transações globais. Ele viu o nome de sua irmã na lista de liquidação, vinculada a um saldo negativo que nunca existiu. A elite da cidade não acumulava riqueza; eles a extraíam do desespero alheio.

Um alarme agudo, um zumbido digital que parecia perfurar seus tímpanos, ecoou pela oficina. O sistema de segurança da cidade fora alertado. Lucas sentiu uma pontada aguda no peito, um eco físico da drenagem que ocorria no servidor central. O cronômetro, agora em 44:15:00, pulsava em sincronia com o brilho azul da tela.

— Saia daqui — exigiu Lucas, os dedos voando sobre o teclado enquanto tentava isolar o script de drenagem. — Antes que a rede inteira saiba que você falhou em me deter.

Beatriz hesitou, a culpa estampada em cada traço de seu rosto, mas o som de sirenes distantes começou a convergir para o distrito. O tempo estava acabando, e Lucas percebeu, com um horror clínico, que ao hackear o sistema, ele não havia se libertado. Ele havia se tornado o novo alvo prioritário da liquidação daquela noite.

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