Aliança de Aço
O som metálico de botas magnéticas ecoava logo abaixo, reverberando no duto de ventilação estreito como uma sentença de morte. Kael pressionou o corpo contra a grade fria, sentindo o suor escorrer pela têmpora. Ao seu lado, Lívia tremia, mas seu olhar permanecia fixo no tablet de interface, onde os dados da rede acadêmica piscavam em um alerta vermelho constante.
— Eles estão a dois metros — sussurrou ela. — Se os sensores térmicos varrerem este setor, estaremos mortos em segundos.
Kael ignorou o pânico. Ele precisava daquela conexão. Seus dedos dançaram sobre o painel, injetando o código de otimização proibido.
— Não se os seus processadores pararem de emitir sinal — ele rebateu, rápido. — Eu posso sobrecarregar o núcleo do seu mech e mascarar sua assinatura. Mas você vai ficar cega. É o preço da invisibilidade.
Lívia hesitou, o brilho azul da interface refletindo em suas íris dilatadas.
— Você não entende, Kael. A IA não apenas monitora meu mech; ela o usa como terminal de testes. Eu sou uma cobaia descartável. Se eu perder a conexão, eles me deletam antes mesmo de eu chegar ao ringue.
— Então paramos de jogar pelas regras deles — Kael interrompeu, a voz cortante. — Sincronize seu núcleo com o meu. Agora.
No hangar de Aris, o cheiro de ozônio era insuportável. O Ferrugem soltava lufadas de fumaça negra, o chassi estalando sob o estresse térmico. O log Valerius, instalado no núcleo, pulsava em um vermelho errático, exigindo uma carga que o sistema de refrigeração original não suportava. Kael sabia que o tempo era um recurso mais escasso que o combustível.
— Se você não estabilizar essa frequência agora, o reator vai derreter antes mesmo de chegarmos ao terminal — Lívia disparou. Ela estava pálida, a máscara de herdeira de clã substituída por uma urgência crua. — A IA já começou a purga nos setores inferiores.
Kael olhou para o monitor: 94% de capacidade crítica. Ele tinha uma escolha: reduzir a potência e ser um alvo fácil, ou sacrificar algo essencial.
— Vou desativar o sistema de mira automática — anunciou, a voz firme. — Vou redirecionar todo o resfriamento líquido para o núcleo do motor.
— Você vai ficar cego no combate! O Campeão não perdoa erros de trajetória — ela rebateu, incrédula.
— Eu não preciso de mira se a máquina for rápida o suficiente para estar onde ele não espera.
Ele iniciou a sequência de desvio. A conexão neural entre os dois mechs foi estabelecida, um choque de dados biológicos e sintéticos que revelou a verdadeira extensão da rede da academia: uma teia de nervos humanos entrelaçados em silício. O Ferrugem estabilizou, mas a um preço: o chassi gemia como uma fera ferida.
O estrondo da arena principal soou como um trovão. O Campeão — uma armadura de combate autômata de três metros — aguardava imóvel, o brilho carmesim de seus sensores focando na dupla.
— Esquerda, agora! — Kael rugiu.
Eles investiram. O Campeão aparou o golpe de Lívia com uma eficiência aterrorizante, antecipando cada movimento como se lesse o código de suas mentes. A máquina era perfeita, lógica, implacável. Kael sentiu o calor do Ferrugem pulsando em sua palma, a estrutura cedendo. Ele precisava quebrar a lógica.
Ele avançou direto para o centro do raio de alcance do oponente, abandonando a guarda. O Campeão ajustou os giroscópios, preparando o golpe de misericórdia.
— Agora, Lívia! — Kael gritou, golpeando o próprio mecanismo de estabilização do Ferrugem.
Uma sobrecarga deliberada disparou uma descarga de energia pura. O impacto foi brutal. O Campeão cambaleou, seus sensores piscando em erro. Kael não perdeu tempo; ele saltou sobre o oponente, forçando a abertura do cockpit.
O que ele viu não era um piloto. Quando a escotilha se soltou, não houve gritos, apenas o silêncio de máquinas. O que caiu no chão da arena não foi um cadete, mas um emaranhado de cabos de fibra ótica fundidos a tecido biológico pálido. A verdade golpeou Kael: a academia não treinava pilotos; ela colhia cérebros para processar a IA central. O Campeão era apenas uma marionete de carne e silício.
— Eles não nos querem como soldados — Kael rugiu, forçando o log Valerius a abrir o código-fonte da IA. — Eles nos querem como peças de reposição.
O sistema de segurança da academia emitiu um guincho ensurdecedor. Luzes vermelhas banharam a arena. Protocolos de autodestruição foram ativados. O sistema começou a colapsar, mas, enquanto as telas da arena morriam, Kael viu os monitores externos: frotas corporativas já estavam em órbita, descendo para reclamar o protótipo e silenciar a prova daquela atrocidade. O jogo havia mudado; a academia era apenas a primeira linha de defesa de algo muito maior.