A Queda do Sistema
O cockpit do Ferrugem era um forno industrial. O indicador de temperatura, cravado em 98%, não era mais um aviso; era um cronômetro de autodestruição. O chassi de sucata gemia, o metal retorcido protestando contra a sobrecarga do núcleo Valerius. À minha frente, o Campeão da Academia — uma carcaça de polímero e cerâmica de elite — avançava com a precisão de um algoritmo que não conhecia o medo, apenas a eficiência.
— Kael, o núcleo vai fundir! — A voz de Lívia estalou no comunicador, distorcida pela interferência das frequências proibidas. — Se não desativarmos o protocolo de processamento agora, não restará nada de nós para as corporações levarem.
Eu não respondi. Meus dedos dançavam sobre o console, ignorando os alertas de erro que inundavam minha visão. O Campeão disparou um pulso de energia cinética. O impacto fez o Ferrugem recuar, a vibração ressoando nos meus ossos. Eu precisava de uma janela. O log Valerius era minha única arma contra a IA que movia aquela marionete biológica.
— Prepare o pulso — ordenei, forçando o motor de refrigeração ao limite. — Vou abrir a guarda dele. Se eu errar, o sistema inteiro desmorona, mas nós vamos junto.
O Campeão avançou para o golpe final, sua lâmina de alta frequência zumbindo. No último milissegundo, desviei o chassi, deixando o metal inimigo arranhar a carcaça do Ferrugem, e disparei o log Valerius diretamente nos sensores da criatura. O Campeão travou. Seus circuitos, fundidos com tecido nervoso humano, entraram em curto-circuito. Quando ele caiu, a carcaça se abriu, revelando cabos nervosos e hardware da academia. A plateia de cadetes, antes silenciosa, recuou em horror absoluto ao ver a verdade exposta.
— Agora, Lívia! — gritei.
Corremos para o Núcleo de Controle. Atrás de nós, as portas reforçadas tremiam sob os impactos da segurança. Cada golpe era um lembrete: éramos traidores.
— Eles estão limpando os logs! — Lívia gritou, os dedos movendo-se com disciplina frenética no terminal. — Se perdermos esse núcleo, a verdade morre aqui.
Conectei o log Valerius à porta de serviço. O servidor central emitiu um grito digital. Os hologramas de ranking, que ditavam nossas vidas, piscaram e se apagaram. O campus mergulhou no escuro. A verdade sobre os cadetes-processadores inundou a rede pública. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer explosão.
Lívia parou de digitar, a face pálida sob a luz de emergência.
— Kael… olhe o céu.
Não eram as luzes da academia. Naves de guerra corporativas, marcadas com os selos dos clãs que financiavam aquele horror, desciam como abutres sobre o Campo de Provas. O sistema de ranking havia caído, mas a liberdade trouxe um inimigo maior.
— Eles não querem justiça — murmurei, sentindo o peso do datapad de Aris. — Eles querem o protótipo. Querem o que temos no núcleo.
Lívia olhou para o Ferrugem, uma carcaça que mal se mantinha em pé, e depois para mim. A trégua instável entre nós, forjada no sangue e no código, era a única coisa que nos separava da aniquilação.
— O que fazemos? — ela perguntou.
Eu não fugi. Conectei o protótipo à rede de comunicação aberta, desafiando o mundo. Se o sistema queria uma guerra pelo meu poder, eu daria a eles uma revolução que não poderiam apagar.