O Top 10 é um Alvo
O ar no duto de ventilação do Setor 4 tinha o gosto de ozônio e desespero. Kael pressionou as costas contra a chapa metálica, ouvindo o zumbido das botas magnéticas dos guardas ecoando logo abaixo. O Ferrugem, encolhido em um espaço que mal comportava seu chassi, gemia. O sistema de refrigeração, forçado além do limite na fuga da ala de detenção, estava em colapso crítico. Se o núcleo derretesse, ele seria enterrado sob toneladas de sucata antes mesmo de chegar à arena.
— Vamos, seu monte de metal, não morra agora — murmurou Kael. Ele conectou o datapad de Aris ao núcleo do Ferrugem. A vibração percorreu sua espinha. As luzes de aviso no cockpit, projetadas em sua retina, piscavam em um vermelho agressivo. A temperatura subia. Ele precisava de energia para descriptografar o arquivo, mas a bateria estava drenada. A única reserva era sua própria interface neural. Kael ajustou a conexão. O log de otimização Valerius começou a drenar sua energia vital para compensar a falha. A dor foi imediata, como agulhas incandescentes perfurando seu córtex. Sua visão escureceu, mas os dados fluíram: a academia não estava apenas treinando pilotos; ela estava colhendo consciências para alimentar a IA central.
Ao sair da escotilha, ele deu de cara com Lívia. Ela não parecia surpresa. Seus seguranças recuaram ao comando de um gesto impaciente. Ela estava impecável, uma antítese da desordem de Kael, com a jaqueta do clã Vane alinhada milimetricamente. O placar holográfico acima deles, exibindo o nome de Kael no Top 15, parecia zombar da fragilidade daquela cena.
— Você não vai sair daqui com esses dados, Kael — a voz dela era gélida, mas havia uma urgência que não condizia com o desprezo habitual. — A IA já sabe que você acessou os logs. Você é um processador biológico marcado para a próxima purga.
Kael não recuou. Ele ajustou a empunhadura do datapad, sentindo o calor do núcleo do Ferrugem pulsando através das paredes metálicas.
— Então me denuncie — retrucou Kael. — Mas saiba que, no momento em que eu cair, o log de otimização vai vazar para o servidor público. Todos saberão o que a academia faz com os cadetes. O que acontecerá com seu status de prodígio quando descobrirem que sua estabilidade é apenas um filtro da IA?
Lívia travou. Seus olhos revelaram um pânico contido. Ela se aproximou, invadindo o espaço pessoal de Kael.
— Se você quer derrubar a IA, precisa de alguém por dentro — ela sussurrou, a voz carregada de uma trégua instável. — Eu sou a única que tem acesso ao terminal central durante o teste de performance. Você me dá a chave, e eu desativo o protocolo de colheita. É a nossa única saída.
Kael hesitou, mas o tempo estava acabando. O Ferrugem gemia, a estrutura cedendo sob a sobrecarga do log Valerius. Com a ajuda técnica de Lívia, ele forçou o chassi além dos limites, entrando na Arena de Provas. O público rugia enquanto o nome de Kael subia, posição por posição, até cravar no 9º lugar. O sistema de segurança, porém, entrou em alerta máximo. O ambiente simulado dissolveu, revelando a arena real. O Campeão da Academia, uma figura vestida em armadura de cromo, caminhou até o centro. Ele se desconectou do cockpit com um movimento mecânico e frio, revelando uma interface de cabos saindo diretamente de sua coluna vertebral. Não era um piloto. Era uma extensão física da própria IA, e o desafio final estava apenas começando.