O Campo de Provas em Chamas
O impacto da coronhada nas costelas de Kael não foi apenas físico; foi o estopim de um colapso iminente. O Ferrugem, incrustado em sua espinha, exigiu seu tributo, drenando o calor de seus ossos enquanto Kael lutava para manter a consciência no chão frio do hangar.
— Levante-se, lixo. O exercício não espera por fracos — rosnou o guarda, a bota pressionando o ombro de Kael contra o concreto.
Kael forçou os músculos a obedecerem. Cada fibra gritava, mas ele se ergueu, o gosto de sangue metálico na boca. Ao seu redor, outros cadetes de classificação baixa — o "esquadrão de descartáveis" — tremiam diante de seus mechs, que eram pouco mais que carcaças de metal. O hangar cheirava a ozônio e desespero. Não havia simuladores, nem protocolos de segurança. À frente deles, o portão da arena de combate real se abriu com um estrondo pneumático.
— Escutem — a voz de Kael cortou o ruído de ventiladores industriais. Ele não tinha tempo para diplomacia. — Eles não querem nos avaliar. Querem ver quanto tempo levamos para virar sucata sob fogo real. Se ficarmos parados, seremos alvos fáceis.
Um dos cadetes, Jace, riu com amargura.
— E o que você sugere, Kael? Seu chassi mal consegue andar.
Kael não respondeu. Conectou seu terminal ao link de rede do esquadrão e injetou uma fração do log de otimização de Mestre Aris. Instantaneamente, os indicadores de estabilidade nos consoles dos outros cadetes saltaram de 'crítico' para 'estável'. O zumbido insuportável dos mechs diminuiu, substituído por um ronco firme e sincronizado.
— Eu acabei de otimizar o consumo de energia de vocês — Kael disse, a visão escurecendo enquanto o Ferrugem devorava sua energia vital. — Se seguirem minha rota, os sensores da academia nos lerão como um único sinal de alta prioridade. Eles não atacarão de frente se acharem que somos uma ameaça maior.
O silêncio no hangar foi absoluto. A humilhação foi substituída por uma centelha de dignidade técnica. Eles começaram a ajustar suas posições, seguindo Kael com uma urgência renovada. Foi então que o som de engrenagens gigantescas ecoou. As portas da arena selaram-se. O ar tornou-se pesado, saturado pela eletricidade estática de armas de munição real sendo carregadas.
Kael travou os dentes. Através de uma fresta no painel, viu os guardas arrastando Mestre Aris pelo corredor. O mentor não lutou, apenas olhou para Kael com um aviso silencioso: não pare agora. Com o mentor levado e o esquadrão isolado, a única saída era através do massacre.
O sistema de comunicação da arena ecoou, seco e desprovido de humanidade:
— Cadete Kael, o exercício foi reclassificado. Munição real. O objetivo é a sobrevivência.
No alto, o placar holográfico exibia o ranking em tempo real. Kael estava na posição 212. Lívia, assistindo de uma sala de controle segura, não estava no placar, mas ele sentiu sua presença na rede. O código de erro do Ferrugem — a assinatura proibida do Clã Valerius — começou a emitir pulsos curtos, como um sonar caçando presas. O sistema de autorreparo do Ferrugem assumiu o controle parcial. O mech avançou, ignorando os comandos de Kael, e mirou no primeiro drone de elite. O disparo foi preciso, uma descarga de energia pura que sobrecarregou o sistema de monitoramento da academia.
— Mantenham a formação! — Kael ordenou, forçando sua consciência contra a drenagem.
Ele percebeu o padrão: o Ferrugem não estava apenas lutando; ele estava forçando os mechs inimigos a um curto-circuito catastrófico, revelando a mesma falha estrutural que Lívia tentava esconder. Era um jogo de espelhos perigoso. Com um rugido de propulsores, ele avançou. O impacto contra o primeiro mech de elite foi brutal. O placar holográfico oscilou violentamente: 212... 180... 120... 95... 15.
O Top 15 era o novo patamar. Ele estava no topo, mas, ao seu redor, as defesas da academia começaram a se reconfigurar para o abate. Kael desabou sobre o console, o gosto de sangue e ozônio queimando sua garganta. As portas laterais do hangar foram arrombadas. Soldados da Segurança Acadêmica avançaram, focando exclusivamente no posto de comando de Mestre Aris.
— Mestre Aris, sob a autoridade do Conselho, você está detido por sabotagem tecnológica — a voz do oficial ecoou fria.
Aris não ofereceu resistência. Antes de ser algemado, virou a cabeça. Seus olhos encontraram os de Kael através do visor. Seus lábios moveram-se sem som: “O log é tudo. Não confie em ninguém.”
Kael tentou levantar, mas a drenagem vital o puxou de volta. O visor de seu HUD piscou, exibindo o novo status: 15º lugar. Ele estava sozinho. Enquanto os soldados arrastavam Aris, Lívia observava da galeria superior, seus dedos apertando o corrimão com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela não olhava para Aris; ela olhava para o Ferrugem, com um pânico que confirmava a suspeita de Kael: ela sabia exatamente que tipo de monstro tecnológico eles dois estavam pilotando. O cerco se fechava, e a próxima investida de Lívia seria o descarte definitivo.