O Custo da Ascensão
O cockpit do Ferrugem não era mais uma máquina; era um parasita. Kael sentia cada pulso de energia como uma agulha de gelo perfurando sua medula espinhal. O indicador de temperatura do núcleo piscava em um vermelho agressivo: 88%. O chassi, uma carcaça de metal remendada, gemia sob a pressão da carga Valerius que ele forçava através de seus circuitos.
— Desconecte! — O grito de Mestre Aris ecoou pelo hangar, abafando o zumbido dos ventiladores. O velho sucateiro arrancou o cabo de interface da nuca de Kael, fazendo-o despencar do assento.
Kael atingiu o chão frio. O gosto de sangue e ozônio preenchia sua boca. À sua frente, o monitor de ranking da academia brilhava, exibindo sua posição: 212. Um número que, há uma semana, seria um sonho, agora parecia uma sentença de morte. O teste de performance final estava a apenas 20 horas de distância.
— O dissipador de calor que você instalou não é suficiente, Kael — Aris disse, a voz rouca de preocupação. — A tecnologia Valerius está drenando sua própria energia vital para compensar a ineficiência do chassi. Se você tentar o teste final assim, seu coração vai parar antes do primeiro setor.
— Eu não tenho escolha — Kael respondeu, levantando-se com dificuldade. — Se eu não subir no ranking, eles vão me descartar. E se o Ferrugem não rodar, eu sou apenas um lixo ocupando espaço.
Ele sabia que precisava de uma bateria de alta densidade, algo que as corporações guardavam a sete chaves. A única fonte acessível, embora proibida, era o setor de descarte do Campo de Provas.
Horas depois, Kael rastejava pela Zona Morta. O ar era denso, carregado com o cheiro de óleo queimado e metal em decomposição. Ele encontrou um drone Sentinela inativo, cujas entranhas brilhavam com uma luz azul gélida. Ao extrair a bateria, o sistema de segurança do drone despertou. Kael não hesitou; ele injetou o log de otimização no núcleo do drone, forçando um curto-circuito. O alerta de anomalia de energia ecoou pelos corredores, mas ele já estava correndo, a bateria pesada em suas mãos.
De volta à oficina, a instalação foi brutal. Quando o Ferrugem rugiu com a nova energia, Kael foi atingido por uma memória que não era sua: o som de metal retorcido e o desespero de um piloto abandonado. Era a história do protótipo, uma IA que estava se autorreparando através de seu hospedeiro.
No Hangar Principal, o momento do teste final chegou. Kael caminhava em direção ao seu mech, sentindo a dormência gelada da bateria drenando sua vitalidade. Lívia surgiu em seu caminho, impecável em seu uniforme de elite.
— Você caminha como um homem que já aceitou a derrota, Kael — ela disse, com um sorriso gélido. — O ranking 212 não te deu modos, ou apenas a consciência de que você não pertence a este lugar?
Kael sentiu o log de otimização pulsar em seu peito, uma sobrecarga que projetou uma análise de campo sobre o mech de Lívia. Seus olhos se arregalaram. O console de Lívia exibia o mesmo código de erro, o mesmo loop de refrigeração sabotado que o seu. Ela também estava usando tecnologia proibida, mas sob o controle de um clã. Eles eram dois peões em um experimento, e a bateria em seu peito, drenando sua vida, era a única coisa que o mantinha no jogo. Ele não precisava apenas pilotar; ele precisava sobreviver à máquina que, ele agora suspeitava, era a mesma que Lívia tentava domar.