Duelo de Honra
O ar no Hangar 4 tinha o gosto metálico de ozônio e desespero. Kael observava o monitor holográfico: 88% de dano térmico. O sistema de refrigeração do Ferrugem gemia, um som agudo que parecia o chassi pedindo clemência.
— Se não encaixar esse dissipador agora, o núcleo vai derreter no primeiro disparo — Mestre Aris rosnou, as mãos manchadas de óleo tremendo enquanto segurava a chave de torque.
Kael ignorou o tremor. O dissipador, uma peça de sucata de um cargueiro civil, era uma heresia técnica comparada ao log de otimização Valerius que pulsava no núcleo. O encaixe era incompatível por dois milímetros. Kael forçou a peça, ignorando o grito estridente do metal. Ele precisava de estabilidade para as próximas 20 horas. Se o Ferrugem falhasse antes do teste de performance, ele não seria apenas expulso; seria desintegrado pelo sistema de segurança que já rondava o setor, farejando a assinatura proibida que ele mal conseguia mascarar.
Ao sair do hangar, a pressão da academia o atingiu como um soco. No Campo de Provas, Lívia o esperava. Ela não estava sozinha; um cadete robusto, protegido de seu clã, bloqueava o caminho com o painel de ativação do seu mech em mãos.
— O lixo não deveria circular livremente, Kael — a voz de Lívia cortou o burburinho dos cadetes. O ranking holográfico acima de Kael, marcando a posição 212, brilhava como um alvo. — O comitê de disciplina está ciente das suas irregularidades. Um duelo oficial agora limparia o nome da academia de fraudes como você.
Kael sentiu a vibração do Ferrugem em seu pulso. O monitoramento corporativo externo zumbia em uma frequência proibida, uma sombra que ele mal conseguia esconder sob as camadas de código. Recusar significava a expulsão imediata. Aceitar era um suicídio técnico.
— Um duelo? — Kael rebateu, a voz firme. — Você quer provar que o sistema não comete erros, Lívia. Mas o que você fará quando o erro vencer?
O duelo no Cume de Aço foi brutal. O protegido de Lívia disparou rajadas de plasma que rasgaram o ar, mas Kael, fingindo um atuador falho no braço esquerdo, arrastou o Ferrugem em um recuo desajeitado. A plateia riu. Lívia, na tribuna, sorriu com desdém. Foi então que Kael injetou o log proibido. O Ferrugem rugiu. Em um movimento impossível para um chassi de sucata, Kael contornou o canhão do oponente e travou o núcleo inimigo com um golpe de precisão cirúrgica. O mech do protegido colapsou, inerte.
Kael venceu, mas a euforia durou pouco. No vestiário, o suor frio escorria por sua espinha, misturado a uma dor lancinante que irradiava de sua própria coluna.
— Você está se matando, Kael — disse Aris, observando o monitor de diagnóstico. — O dissipador não está apenas drenando o calor do chassi. Ele está puxando a energia da sua rede neural para compensar a sobrecarga Valerius.
Kael olhou para o ranking: 212. Ele havia subido, mas o preço era sua própria vitalidade. A expulsão ainda pairava sobre ele, e agora, cada vitória o aproximava não de um troféu, mas do colapso total de seu corpo. A bateria que ele recuperou estava drenando sua própria energia vital, não apenas a do mech.