A Sombra do Top 50
O Hangar 42 não era mais um refúgio; era uma câmara de pressão. O indicador de dano térmico no painel do Ferrugem oscilava em 88%, uma luz vermelha que pulsava como um batimento cardíaco irregular. O zumbido do núcleo, antes uma sinfonia de triunfo após o duelo, agora soava como o estertor de uma máquina condenada. O ar estava saturado com o cheiro acre de ozônio e isolamento derretido.
— O núcleo vai derreter antes da próxima bateria de testes, Aris — Kael rosnou, as mãos trêmulas sobre os controles táteis. — A assinatura Valerius está vazando. Os sensores da Academia não são cegos. Se eles escanearem o Hangar agora, não serei apenas expulso; serei apagado do sistema.
Mestre Aris, agachado sob a carcaça do mech, limpou o óleo das mãos com um trapo imundo. O brilho maníaco em seus olhos, antes focado na genialidade do design, agora era tingido por uma culpa palpável.
— Você queria o poder de um prodígio, Kael? O protótipo está aprendendo seu estilo, adaptando as frequências para maximizar o dano, mas este chassi de sucata é uma carroça de bois forçada a carregar um motor de caça. A física não perdoa.
Kael não respondeu. Ele precisava de um dissipador de calor de alta performance. Sem isso, a próxima manobra seria a última. Ele saiu do hangar, movendo-se pelas sombras do setor de manutenção, onde o mercado negro da Academia operava entre os dutos de ventilação. A negociação foi rápida, brutal e custou seus últimos créditos de subsistência. Ele voltou com uma peça de segunda mão, um componente azul opaco que parecia vibrar com uma energia instável.
Ao tentar instalar o dissipador, o ar no corredor mudou. Três cadetes do clã Vane, com uniformes impecáveis e expressões de desprezo absoluto, bloquearam a saída. O líder, um Fiscal de Segurança, sorriu ao ver o Ferrugem parcialmente aberto.
— Inspeção de rotina, Kael. A diretoria quer saber como uma lata-velha da posição 212 sobreviveu ao teste de recall — disse o cadete, avançando com um scanner de assinatura energética.
Kael sentiu o peso do log de otimização em seu núcleo. Se o scanner tocasse a carcaça, o segredo Valerius seria exposto. Ele não hesitou. Ativou o log de otimização em modo de sobrecarga. O Ferrugem soltou um gemido sônico, uma frequência proibida que fez as luzes do corredor estourarem em uma chuva de faíscas. A descarga de energia foi tão precisa que sobrecarregou os sistemas dos mechs dos atacantes, travando seus giroscópios e jogando-os contra a parede. Kael aproveitou a confusão, as pernas do Ferrugem movendo-se com uma fluidez que desafiava sua estrutura precária, e desapareceu na escuridão dos dutos.
Ele encontrou abrigo no Setor de Provas Abandonado, mas sua vitória teve um preço amargo. O HUD, antes focado em dados de combate, agora pulsava em um vermelho agressivo. Uma notificação surgiu sobre sua visão: AVISO: Monitoramento Corporativo Ativo – Assinatura de Energia Não Autorizada (Valerius).
Não era mais uma questão acadêmica. O sucesso de sua manobra, a performance que o impulsionou no ranking, havia atraído o olhar de alguém muito acima dos instrutores da Academia. O monitoramento corporativo não era um erro; era um rastreamento sistemático. Kael percebeu, com um aperto no peito, que o protótipo não era apenas uma ferramenta de ascensão, mas a peça central de uma conspiração que ele mal começava a compreender. Ele tinha menos de vinte horas até o teste de performance final. Com o sistema de refrigeração ainda crítico e a sombra de uma investigação corporativa oficial pairando sobre seu chassi, Kael entendeu que subir no ranking não era mais uma escolha, mas sua única forma de sobrevivência. A escada era alta, e o próximo degrau exigia um sacrifício que ele ainda não estava pronto para fazer.