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Chapter 3: O Degrau da Vergonha

Kael sobrevive ao teste de recall, mas sua performance espetacular atrai atenção indesejada. Após humilhar um cadete de elite em um confronto direto, ele é confrontado por Lívia, que suspeita da fraude técnica. Ao retornar ao seu cubículo, Kael descobre que a assinatura de energia proibida do seu mech disparou um alerta de monitoramento corporativo, elevando o risco de sua jornada de um problema acadêmico para uma ameaça externa.

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O Degrau da Vergonha

O ar na câmara de simulação ainda estava saturado com o cheiro acre de ozônio e metal queimado. Kael chutou a trava da cabine do Ferrugem, sentindo o calor residual atravessar o tecido de seu traje. O mech emitiu um estalo agudo, um lamento metálico que soou como um grito de dor, enquanto uma voluta de fumaça negra escapava de uma junta mal vedada no ombro direito.

— Kael, status da unidade! — A voz do Instrutor Vane cortou o silêncio, fria e suspeita.

Kael não hesitou. Com um movimento ágil, conectou um bypass no painel lateral, desviando a energia de emergência para os dutos de ventilação. O sistema rugiu, expelindo uma nuvem densa de vapor dos extintores que mascarou o brilho alaranjado do núcleo superaquecido. O vapor subiu, ocultando a modificação ilegal que mantinha o Ferrugem funcional.

— Superaquecimento nos servos, senhor. A velha sucata está chegando ao limite — disse Kael, a voz mantida em um tom neutro. Vane estreitou os olhos, observando o vapor dissipar-se. Kael forçou a alavanca de manobra. O mech deu um passo instável, o metal rangendo, mas manteve a postura firme sob o escrutínio dos instrutores. Ele precisava sair dali, agora.

No átrio principal, o brilho azulado dos hologramas da Academia de Éter pulsava, atualizando o ranking global. Kael sentiu o estômago revirar enquanto seu nome, antes perdido na obscuridade das fileiras inferiores, disparava para cima. A posição 212 piscou em um vermelho agressivo, saltando cinquenta degraus de uma só vez. O silêncio no átrio foi cortado por murmúrios venenosos. Cadetes de elite, envoltos em mantos de seda técnica, pararam para encarar o intruso.

— Um erro de sistema? — zombou Valerius, um cadete de nível médio, bloqueando o caminho de Kael. Seus dedos já formavam faíscas de energia. — Ou apenas um rato que aprendeu a manipular os logs?

Kael não recuou. Seus olhos escanearam a postura de Valerius, os dados de combate projetando o arco do golpe iminente. Valerius avançou, um gancho carregado de eletricidade visando o queixo de Kael. Para os espectadores, foi um movimento rápido; para Kael, foi uma sequência de vetores previsíveis. Ele inclinou a cabeça milímetros para o lado, deixando a faísca passar rente à sua orelha, e girou sobre o próprio eixo. Com um golpe seco no ponto de pressão do cotovelo de Valerius, Kael desarmou a energia do cadete, forçando-o a atingir o próprio peito. O choque sônico ecoou, e Valerius caiu de joelhos, humilhado diante da audiência. O placar digital destacou o nome de Kael em um vermelho ainda mais intenso: Alerta de Monitoramento Elevado.

Kael atravessou o corredor de acesso aos dormitórios, a adrenalina da vitória lutando contra o cansaço. O sistema de refrigeração do Ferrugem operava em zona crítica; se não conseguisse peças nas próximas vinte horas, o chassi seria apenas uma carcaça fundida. Antes que pudesse chegar ao seu cubículo, uma sombra familiar bloqueou sua passagem. Lívia estava encostada na parede, o distintivo de elite brilhando com uma luz azul gélida.

— Cinquenta posições, Kael — ela disse, a voz ecoando no corredor vazio. — Um salto estatisticamente impossível para uma peça de museu como o seu Ferrugem. O que aconteceu lá dentro? Você mudou o núcleo ou apenas aprendeu a mentir melhor para os sensores da academia?

Kael sentiu o peso do log de otimização proibido no sistema, uma presença silenciosa e perigosa. Ele manteve a máscara de indiferença, encarando a herdeira do clã.

— Talvez a sucata tenha mais alma do que o seu orgulho, Lívia. Ou talvez você esteja apenas com medo de que a hierarquia que te protege seja mais frágil do que parece. — Kael deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Se está tão preocupada com o meu desempenho, por que não me desafia no campo oficial? Ou a elite tem medo de perder para o 'rato'?

Lívia estreitou os olhos, o desprezo dando lugar a uma análise fria e predatória. — Seu mech não deveria se mover assim. O que você está escondendo?

Kael não respondeu, apenas passou por ela. Ao entrar em seu cubículo, ele fechou a porta reforçada com um estrondo. Ele se jogou na cadeira diante do terminal, as mãos trêmulas conectando o cabo de diagnóstico ao núcleo do mech. O HUD do Ferrugem cintilou em uma tonalidade avermelhada, o sistema de refrigeração emitindo um aviso intermitente: Dano Térmico Crítico: 88%. Integridade do Chassi: Limiar de Colapso.

— Aguenta mais um pouco, velho amigo — sussurrou Kael, os dedos voando sobre os comandos para isolar os registros de otimização. Foi quando o monitor principal oscilou. Em vez dos logs padrão da Academia, uma janela de comando surgiu, saltando sobre as camadas de segurança. Não era um erro de sistema. Era uma invasão externa. O texto em código azul-cobalto piscava com uma autoridade fria: [Monitoramento Corporativo Ativo: Rastreamento de Assinatura Valerius detectado].

O coração de Kael parou. A tecnologia que ele usara para salvar sua pele não era apenas um atalho; era uma marca registrada. Alguém fora daquelas paredes — possivelmente um dos clãs que detinha o controle dos mechs — havia notado a assinatura proibida. Ele não era mais apenas um cadete lutando pelo ranking; ele era um alvo corporativo.

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