Sincronia de Alto Risco
O cheiro de ozônio no Hangar 42 era o prenúncio de uma execução. Kael sentia o calor irradiando do chassi do Ferrugem, uma vibração metálica que subia pelos seus nervos, fundindo-se à sua medula. O monitor holográfico piscava em vermelho agressivo: 88%... 92%... 97%.
— Kael, eles estão na porta do setor! — O sussurro de Mestre Aris era um corte afiado, carregado pelo pânico de quem já perdera tudo. O velho sucateiro limpava o suor frio da testa com um trapo impregnado de óleo. — Se os guardas da academia virem essa assinatura energética saindo do núcleo, não vão apenas nos expulsar. Vão nos apagar da história.
Kael ignorou o aviso. Seus dedos dançavam sobre o console improvisado, forçando o log de otimização proibido a se integrar ao sistema de controle. O Ferrugem deu um solavanco, as articulações hidráulicas emitindo um ganido de metal sendo forçado além do limite. Então, o lag de input desapareceu. O chassi respondeu a um comando de rotação com uma fluidez sobrenatural. O som de botas pesadas ecoou no corredor. Kael sobrecarregou um fusível secundário, criando uma explosão de faíscas e uma cortina de fumaça que forçou os guardas a recuarem sob o caos de um alarme de incêndio forjado.
Na oficina, o ar era denso. Aris agarrou o pulso de Kael, os olhos fixos na telemetria azul neon.
— Onde conseguiu isso? É a assinatura do Clã Valerius. Isso é roubo de tecnologia de elite. Se eles descobrirem, sua cabeça valerá menos que sucata.
Kael sentiu o suor frio escorrer. Seus núcleos térmicos estavam no limite; sem resfriamento, o protótipo derreteria em minutos.
— Eu não roubei, eu decifrei — disparou Kael, a voz firme. — E você sabe que só eu posso otimizar a frequência. Se quer uma fatia dos créditos da premiação, modifique o sistema de refrigeração agora. Ou ambos perderemos tudo.
Aris soltou uma risada seca, o rosto distorcido pela ganância. — Você não entende a hierarquia. Eles não vão descobrir se o teste for perfeito.
No Campo de Provas, o ar cheirava a desespero. O Instrutor Vane observava, frio e desdenhoso. Lívia, a herdeira impecável, mantinha os braços cruzados, observando Kael como quem espera o erro inevitável. Kael fechou os olhos, a conexão neural com o Ferrugem tornando-se visceral. Quando ele acionou o propulsor, o mech deu um salto lateral que desafiou a física acadêmica, deixando um rastro de faíscas no concreto.
— O que foi isso? — Vane deu um passo à frente, os olhos fixos na telemetria.
O Ferrugem operava em frequências proibidas. O núcleo começou a emitir um ganido agudo, e o vapor tóxico sibilou pelas juntas. Kael forçou o motor ao limite, ignorando os avisos de falha crítica que piscavam em sua visão periférica. Ele completou o circuito, a manobra final exigindo uma precisão que quase fritou seus nervos. O mech travou ao pousar, soltando uma nuvem de fumaça branca que ocultou a instabilidade do núcleo aos olhos dos instrutores.
Kael saltou da cabine, as pernas bambas. Antes que pudesse recuperar o fôlego, a sombra de Lívia o envolveu.
— Aquela manobra no nível quatro... — A voz dela cortou o ruído dos ventiladores. — O tempo de resposta foi sub-milissegundo. Máquinas da série G não possuem essa taxa. O que você está escondendo?