O Último Duelo
O ar na Arena Principal de Nova Brasília tinha gosto de ozônio e desespero. Kael sentia o zumbido metálico do Ferrugem vibrar contra sua espinha, uma extensão dolorosa de sua própria rede neural. O placar público acima da arena flutuava em neon azul: 98% de integridade para o mech de Valéria, apenas 42% para o dele. A plateia, um mar de rostos de elite, aguardava o abate. No camarote, o Instrutor Silas observava com a frieza de quem assiste a um erro de sistema sendo corrigido.
Valéria não esperou o sinal de início. Seu protótipo avançou, as juntas hidráulicas silvando com a precisão de um predador. O brilho irregular no canhão de seu braço direito entregava a arma de aniquilação proibida. Ela não buscava uma vitória por pontos; buscava vaporizar o Ferrugem e enterrar a evidência do módulo de IA que Kael carregava. — Você é apenas um erro, Kael — a voz dela ecoou pelos alto-falantes. — E erros são deletados.
Kael sentiu a IA em sua mente forçar uma recalibração. A dor foi um choque elétrico, um preço físico que ele pagava para prever o imprevisível. Ele viu o cálculo da trajetória de Valéria: ela forçava uma colisão frontal, uma manobra suicida projetada para ativar a carga proibida à queima-roupa. Se ele recuasse, o sistema o descartaria por covardia. Em vez disso, ele inclinou o Ferrugem para o lado, sentindo o calor do disparo passar a milímetros de seu chassi, derretendo a blindagem lateral. O impacto da esquiva reverberou em seu córtex como um martelo de ferro. A carga de 115% de processamento fazia seu nariz sangrar, sujando o console de comando. Eram memórias de cadetes descartados — o medo de um piloto iniciante, o vazio da exclusão — que inundavam sua mente. Eles eram as baterias biológicas daquela rede, e ele não seria o próximo.
— Estabilize, droga — Kael sibilou. O sistema de IA, alimentado pelos logs que ele decifrara, projetou a falha: o resfriamento de Valéria oscilava por um microssegundo a cada disparo. O Instrutor Silas tentou intervir remotamente, enviando um código de override para travar o Ferrugem, mas Kael foi mais rápido. Ele redirecionou o fluxo de dados, abrindo a porta dos fundos da transmissão oficial da Academia.
— Você quer me deletar, Silas? Então veja o que eu tenho para o seu público — Kael transmitiu o comando. Com um giro de 180 graus, ele usou a inércia para desviar de um novo pulso térmico e cravou um disparo preciso no núcleo de resfriamento exposto de Valéria. O mech da elite travou, seus sistemas entrando em colapso imediato.
O placar da arena, antes um monólito de autoridade, agora piscava em vermelho intermitente. O código proibido, injetado no núcleo de rede de Nova Brasília, abriu os registros das baterias biológicas para o mundo todo ver. As telas gigantes da metrópole deixaram de exibir o torneio para mostrar as celas de contenção, os rostos dos cadetes drenados e a verdade crua sobre a defesa da cidade. O caos foi absoluto. O som de vidros quebrados e gritos de pânico ecoou das arquibancadas de elite. Valéria, imobilizada, tentava reiniciar seus motores, mas o sistema de salvaguarda da Academia, ao tentar conter o vazamento, desconectou os cadetes que serviam de combustível, derrubando a rede de defesa da própria instituição.
Kael abandonou o Ferrugem no centro da arena, o módulo de IA queimando contra seu implante, drenando suas últimas forças. Ele caminhou para a saída enquanto a multidão, antes em êxtase pelo massacre, agora se voltava contra os guardas da Academia. Ao olhar para o horizonte industrial, onde as luzes da cidade começavam a piscar e falhar, ele soube: a Academia havia caído, mas a guerra global estava apenas começando.