O Torneio de Elite
O ar no Hangar 4 era denso, saturado com o cheiro acre de ozônio e o zumbido metálico do Ferrugem. Kael limpou o suor frio da testa com as costas da mão, sentindo o latejar rítmico na nuca — o preço físico da conexão neural. Cada ciclo de otimização que ele forçava sobre o sistema de resfriamento do mech era uma facada em seu próprio córtex.
— Kael, pare. Se você puxar mais carga, seu sistema nervoso vai fritar antes mesmo de subir no cockpit — Breno sussurrou, os olhos fixos na entrada do hangar. O garoto tremia, o medo refletindo a tensão que paralisava a Academia desde que a verdade sobre as baterias biológicas vazara.
Kael ignorou. Seus dedos dançavam sobre o console, redirecionando fluxos de energia para os dissipadores de calor. Ele não estava apenas consertando uma máquina; estava montando uma armadilha. A IA, fria e implacável, projetava a simulação da final na retina de Kael: o ponto cego na blindagem de Valéria, a falha estrutural oculta sob a arrogância da elite.
— Se eu não fizer isso, sou apenas um erro de sistema aguardando a deleção, Breno — respondeu Kael, a voz rouca. — Silas já deu a ordem. Eles não querem um competidor. Querem um sacrifício público para encerrar a linhagem de problemas que eu represento.
Um estalo metálico ecoou no fundo do sistema. Kael travou a respiração enquanto a IA exibia um log de acesso remoto: o mech de Valéria havia recebido uma sobrecarga de energia proibida, uma modificação para aniquilação de curto alcance. O objetivo não era vencer; era vaporizá-lo no centro da arena.
*
O ar na Arena do Abatedouro pulsava com o brilho neon dos placares. Kael estava no centro do palco, o Ferrugem rangendo sob a pressão de uma otimização forçada que mantinha seus sistemas operando em 115% da capacidade. À sua frente, cadetes de elite caíam um a um sob sua eficiência brutal. Kael não precisava desviar manualmente; o módulo de IA projetava a trajetória de impacto no HUD como uma linha vermelha cirúrgica, transformando cada movimento em uma execução tática.
Ele sacrificou a integridade da blindagem lateral para forçar uma vitória rápida contra um oponente de nível intermediário, provando que sua tática era superior. O placar de ranking saltou. A multidão, antes silenciosa em sua descrença, começou a murmurar. O status social de Kael, antes um zero absoluto, subia como uma afronta à meritocracia da Academia.
Silas se aproximou de Kael antes da final, sua sombra projetada sobre o cockpit. O instrutor não sorriu.
— Você é uma bateria descartável, Kael. A morte de hoje será tecnicamente justificada como falha de equipamento. Aproveite seus últimos minutos de funcionalidade. O sistema não tolera anomalias.
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O ar na Arena Principal de Combate tinha gosto de desespero. Kael ajustou o cinto neural, sentindo a pontada aguda na base do crânio. À sua frente, o mech de Valéria — uma estrutura de polímero negro e ligas de elite — parecia uma lança pronta para o bote. O placar público acima deles não deixava dúvidas: Valéria, Rank 1; Kael, Rank 84.
A voz sintética do sistema ecoou: Início da rodada final em dez segundos.
Kael ativou os diagnósticos do Ferrugem. O mech estava no limite da falência, mas o módulo de IA, alimentado pelo sacrifício de sua própria carga neural, projetou uma sobreposição de dados sobre o campo de visão de Kael. O que ele viu fez seu sangue gelar: o sistema de refrigeração do mech de Valéria não estava apenas otimizado; ele escondia um pulso de aniquilação de curto alcance, uma arma proibida projetada para fritar sua interface neural instantaneamente.
Valéria não lutava por honra. Ela lutava para executar um erro. Enquanto os motores rugiam em uníssono, Kael percebeu que a armadilha estava armada. Se ele recuasse, seria exilado; se avançasse, seria incinerado. Ele fechou os olhos por um microssegundo, aceitando a dor excruciante da IA, e destravou o protocolo final de transmissão. O mundo ao redor começou a brilhar com a luz de dados proibidos prestes a vazar. A colisão era inevitável.