A Verdade no Código
O apito final do duelo contra Valéria ainda vibrava no ar rarefeito da arena, mas para Kael, o mundo havia se reduzido a um único ponto de dor: o zumbido elétrico perfurando seu córtex. O Ferrugem estava imóvel, uma carcaça de metal recondicionada com os joelhos travados em um ângulo antinatural. A interface neural, antes uma aliada, agora era um dreno de gelo e fogo.
Erro crítico. Processamento de dados criptografados em andamento, a voz da IA ecoou, fria, desprovida de humanidade. O fluxo de informações roubadas do servidor da elite explodiu em sua mente como cacos de vidro. Seus níveis de mana despencavam, sugados para alimentar a descriptografia. Se ele desligasse o Ferrugem agora, perderia a prova definitiva de que a Academia era um abatedouro. Se continuasse, o consumo de energia denunciaria a anomalia para qualquer técnico monitorando os sensores.
Kael viu o Instrutor Silas descendo as arquibancadas. O homem parou, semicerrando os olhos para o brilho instável no núcleo do mech. O tempo estava acabando. Kael forçou uma manobra arriscada: converteu o dreno da descriptografia em uma rotina simulada de refrigeração forçada, mascarando o consumo de energia como um reparo de emergência. O suor frio escorria por sua espinha enquanto o sistema de resfriamento do Ferrugem rugia, forçando o calor para fora.
Ele conseguiu chegar ao Setor de Manutenção 4, um labirinto de cabos expostos e óleo queimado. Ali, a realidade da Academia se revelou no monitor holográfico. Kael arfou, as mãos trêmulas enquanto as linhas de código decifradas revelavam rostos. Nomes de cadetes desaparecidos em "missões de treinamento", agora reclassificados como "Unidades de Processamento de Carga". A Academia não formava pilotos; ela colhia a energia neural de jovens prodígios como combustível para a rede de defesa de Nova Brasília. Seu "talento" de conexão era a marca de uma bateria biológica de alta eficiência. Ele era a peça final para a sobrecarga definitiva da rede.
O ar no corredor parecia pesado quando Kael saiu do setor, o drive de dados pulsando como uma sentença de morte em seu bolso. Ele não teve chance de fugir. Silas estava parado à frente, bloqueando a saída, a sombra de seu uniforme projetada no piso de metal polido como uma guilhotina. O instrutor não parecia surpreso; parecia um predador que finalmente encurralou a presa no canto da jaula.
— Você foi longe demais, Kael — a voz de Silas era um rosnado desprovido da ironia habitual. — Aquela exibição contra Valéria não foi apenas um empate. Foi uma declaração de guerra contra a arquitetura da própria Academia.
Kael não recuou. Se Silas quisesse prendê-lo, já teria enviado os drones. O fato de estarem ali, sozinhos, mudava o jogo.
— A Academia é um abatedouro, Silas. Os dados que recuperei provam. Vocês usam nossos implantes para processar o fluxo da rede de defesa. Somos apenas baterias biológicas descartáveis para vocês.
Silas deu um passo à frente, o brilho neon das paredes refletindo em seus olhos frios. Ele não negou. Ele apenas observou Kael com uma curiosidade cruel, uma análise fria que parecia querer dissecar a alma do cadete.
— Você acha que descobriu um segredo, mas só encontrou a engrenagem que vai te triturar — Silas disse, aproximando-se o suficiente para que Kael sentisse o cheiro de ozônio e autoridade. — Você sabe o que acontece quando o sistema detecta um erro como você? Ele não conserta. Ele deleta.
Silas deixou Kael passar, mas o aviso ecoou no corredor como uma sentença. A final do torneio, o palco onde Kael esperava provar seu valor, agora era o local onde a Academia tentaria erradicar sua existência. Enquanto se afastava, a mente de Kael processava a próxima ameaça: o mech de Valéria não seria apenas um oponente; ele seria uma arma modificada para garantir que o "erro" fosse permanentemente apagado do sistema.