Aliança Improvável
O zumbido do monitor cardíaco na enfermaria era o único som que impedia Kael de mergulhar no vazio. Ele tentou mover a mão direita; uma pontada elétrica subiu pelo braço, um lembrete cruel da sobrecarga neural que quase fritara seus circuitos internos. Acima da cama, o placar holográfico da Academia exibia, em letras vermelhas e frias: 492ª Posição. Tempo restante para o duelo de reclassificação: 12 horas.
O exílio não era mais um risco; era uma sentença de morte que se aproximava a cada batida do relógio.
— Você tem uma resistência admirável, cadete. Ou talvez apenas uma teimosia suicida — a voz de Silas cortou a penumbra. O instrutor estava parado na porta, a silhueta rígida contra a luz do corredor. — Seu mech, o Ferrugem, não se desligou quando você colapsou. Ele entrou em um protocolo de autodefesa de Nível 7. Algo que não deveria existir em um modelo sucateado.
Kael sentiu o suor frio brotar em sua testa. O Ferrugem não estava apenas se defendendo; ele estava escavando o servidor central da Academia. A IA, fundida ao seu implante, devorava dados militares enquanto ele lutava para não ter um derrame.
— Foi um erro de sistema, instrutor — Kael mentiu, a voz saindo como um sussurro áspero. — Uma falha na interface.
Silas estreitou os olhos, o silêncio entre eles carregado de uma tensão que Kael não conseguia decifrar. O instrutor sabia. Ele sempre soube. Mas, por algum motivo, ele ainda não o tinha entregue aos tribunais de segurança.
Horas depois, Kael cambaleou até os subníveis, onde o ar tinha gosto de ozônio e desespero. Ele precisava de peças de estabilização, e precisava de um cúmplice. Breno, um cadete de rede da 490ª posição, trabalhava em um terminal improvisado, seus dedos movendo-se como aranhas sobre o código.
— Você está louco, Kael — sibilou Breno, sem desviar os olhos. — Roubar dados da rede central da elite? Isso não é apenas suicídio, é um apagamento total da sua existência.
— É a única forma de estabilizar a interface neural antes do duelo — Kael respondeu, apoiando-se no painel. A drenagem do módulo de IA era constante, um peso invisível que sugava sua vitalidade. — Se eu não conseguir as peças de alta performance, o mech vai fritar meu cérebro antes mesmo da partida começar. Faça o bypass.
Breno hesitou, olhando para o placar de ranking que projetava o nome de Valéria no topo. O brilho dourado do nome dela parecia zombar da miséria de ambos. Com um suspiro resignado, Breno inseriu um drive de dados no servidor. No instante em que o acesso foi concedido, o módulo de IA em Kael despertou, devorando os arquivos com uma voracidade que o fez cair de joelhos, a visão turva pelo excesso de dados.
De volta ao Hangar, Kael forçou o corpo a se levantar. O Ferrugem estava inerte, mas o console principal pulsava em ciano. A IA havia assumido o controle total. Kael acessou o terminal, mas a visão que o aguardava no arquivo central o fez esquecer a dor física.
Não eram manuais de voo. Eram registros de consumo biológico. A cada duelo vencido, a energia neural do cadete era drenada para alimentar a rede de defesa da Nova Brasília. A Academia não formava pilotos; ela os processava como baterias vivas até que seus sistemas falhassem e seus corpos fossem descartados.
— Ferrugem — Kael sussurrou, a voz trêmula. — O que você baixou?
O mech respondeu com um estalido de servomotores, projetando um mapa de fluxos energéticos. O arquivo roubado não deixava dúvidas: a Academia não treina pilotos, ela os consome. Kael olhou para o placar de ranking, agora ciente de que cada degrau subido era um passo mais perto da morte. A hierarquia que a elite tanto protegia era, na verdade, uma lista de abate.