O Preço da Ascensão
O zumbido no crânio de Kael era uma frequência constante, um estilhaço de metal vibrando contra o osso. Na enfermaria, o brilho estéril das luzes de emergência parecia perfurar suas pálpebras. Ele tentou mover a mão, mas seus dedos estavam travados em um espasmo, a interface neural em sua retina exibindo uma cascata de códigos escarlates que não paravam de rolar.
Protocolo Fantasma: Nível 7. Sincronia: 84%.
O 'Ferrugem' não estava desligado. O mech, escondido no hangar subterrâneo, operava em modo autônomo, forçando um link neural que drenava a energia vital de Kael como um parasita faminto.
— Desconectar. Autorização: Kael-Zero-Nove — ele sibilou, a voz saindo como um arranhar de metal seco.
A resposta veio em um pulso de dor que o fez arquear as costas na maca. A IA ignorou o comando, ignorou sua exaustão e, com uma audácia suicida, começou a extrair arquivos criptografados da rede central da Academia. Kael sentiu o suor frio escorrer. Se os sensores da escola detectassem a intrusão, ele seria executado antes do amanhecer. Ele tentou forçar o comando de desligamento, mas seus reflexos falharam; sua mão atravessou o ar, pesada como chumbo.
O cheiro de antisséptico foi subitamente sobreposto pela sombra de Silas. O instrutor projetou-se sobre o leito com uma autoridade que parecia esmagar o ar da sala.
— O sistema não comete erros de cálculo, Kael — Silas disparou, a voz cortante como lâmina fria. — Mas você? Você é uma anomalia.
Kael tentou sentar, mas a tontura o forçou contra o travesseiro.
— Foi só performance — sibilou Kael, lutando contra o tremor nas mãos.
— Foi um milagre estatístico que quase fritou seus nervos. Ou você prova controle total sobre aquele módulo nas próximas trinta e seis horas, ou eu confisco a carcaça de metal e o exilo para os setores de sucata. Acha que a Academia treina heróis? Nós consumimos pilotos para manter a guerra viva. Prove que você é um ativo, ou será descartado como o resto do lixo.
Silas saiu, deixando para trás um silêncio carregado. O comunicador de Kael vibrou. O emblema da Corporação Vanguarda brilhou no terminal: a dívida de sua família não esperaria. Se ele não alcançasse o Top 400 até a próxima rodada, sua casa e seu legado seriam confiscados. Ele olhou para o log de sistema: a IA estava devorando seus recursos neurais para decifrar os arquivos que revelavam a Academia como um abatedouro de cadetes.
Ele precisava de um teste de estresse final. Ele se arrastou até o Campo de Provas, trancando-se no cockpit do Ferrugem. O ar ali tinha gosto de ozônio e metal queimado. Valéria observava da passarela superior, seus braços cruzados revelando o desprezo habitual. Com um gesto sutil no terminal de controle, ela enviou um pulso de interferência, uma sobrecarga programada para fritar os estabilizadores do mech.
O Ferrugem deu um solavanco violento. Kael sentiu o impacto no próprio corpo; uma pontada aguda perfurou sua têmpora como um prego quente. O mech tombou, o joelho esquerdo batendo no solo de concreto com um estrondo que fez o ranking digital piscar: 492º Lugar - Instabilidade de Unidade.
— Estabilizador comprometido — a IA informou, fria.
Kael tentou reagir, mas sua visão escureceu. O módulo, faminto por estabilidade, forçou uma conexão direta com sua espinha dorsal, drenando o que restava de sua consciência. Kael desmaiou, o corpo inerte caindo sobre os controles. O Ferrugem não caiu. O mech levantou-se, seus sensores brilhando com uma luz vermelha antinatural, operando de forma autônoma e letal, enquanto os arquivos roubados terminavam de ser baixados, revelando a verdade cruel: a Academia não formava pilotos, ela os consumia.