Duelo de Manutenção
O visor do Ferrugem piscava em um vermelho agressivo: 36 horas para o expurgo. Kael sentiu o gosto metálico de sangue na boca enquanto seus dedos, trêmulos pela sobrecarga neural, forçavam a última linha de código no terminal do hangar. A IA, um parasita de silício alojado em seu córtex, exigia mais do que apenas processamento; ela exigia sua própria integridade física. Cada comando para contornar o bloqueio de Valéria era uma agulhada de dor que subia pela espinha.
O sistema de segurança da Academia, uma rede de sensores de elite, rugiu. Kael não estava apenas roubando peças; ele estava reescrevendo o firmware do Ferrugem com protocolos militares que não deveriam existir em um mech de sucata. Quando o terminal finalmente autorizou a integração, o chassi do robô vibrou com uma energia nova, fria e precisa. O placar público acima do hangar atualizou: Kael, 492ª posição. Ele não era mais o último, mas agora era um alvo registrado.
O Pátio de Testes A1 era uma arena de vidro e aço, onde o status social era medido em milissegundos de tempo de resposta. Dante, um cadete de linhagem, aguardava no centro com seu Vanguard impecável. O público nas arquibancadas, composto pela elite da Academia, ria da carcaça remendada de Kael.
— Se o seu lixo desmontar, Kael, espero que o seguro cubra o seu funeral — a voz de Dante ecoou pelo canal aberto, carregada de desdém.
Silas, posicionado na tribuna de comando, observava com os braços cruzados. Ele não buscava um vencedor; ele buscava uma falha no sistema que Kael representava.
— Comecem — a ordem de Silas foi seca.
Dante disparou um jato de plasma. Kael não tentou bloquear. A IA, operando em seu terceiro nível de ativação, projetou a trajetória do disparo como uma linha de luz no visor de Kael. Ele moveu o Ferrugem com uma fluidez que desafiava a física daquela sucata. O mech girou sobre o próprio eixo, o braço esquerdo — reforçado com os componentes roubados — cravando-se na articulação do ombro do Vanguard. Com um puxão brutal, Kael arrancou o sistema de armas do oponente. O silêncio na arena foi absoluto antes do rugido de choque da multidão.
Kael colapsou no cockpit, a visão escurecendo. O Ferrugem, contudo, não parou. Seus sensores, agora conectados a uma rede militar externa, começaram a baixar arquivos criptografados, revelando que a Academia não treinava pilotos, mas soldados para uma guerra que o público desconhecia.
Silas desceu as escadas, parando diante do mech inerte. Ele não olhou para o cadete desmaiado, mas para o visor do Ferrugem, onde o Protocolo Fantasma piscava em carmesim. O mentor não via um fracassado; via uma arma de destruição em massa em desenvolvimento. Kael desmaiou, mas o mech continuou operando sozinho, seus sensores focando em Silas com uma precisão predatória, enquanto a energia do módulo drenava o que restava da consciência de Kael.