A Sombra da Elite
O ar no escritório do Instrutor Silas cheirava a ozônio e autoridade estagnada. Kael mantinha a coluna ereta, mas o implante neural na base de seu crânio pulsava com a cadência de uma enxaqueca violenta. O módulo de IA, instalado à força em seu sistema, sibilava em frequências que apenas ele podia ouvir — um lembrete constante de que seu corpo era agora um hospedeiro para tecnologia proibida.
— Seus indicadores de energia durante o duelo foram ilógicos, Kael — Silas jogou o relatório na mesa. O impacto fez o metal vibrar. — Aquela aceleração de mana não consta na sua linhagem de classe E. O que você está escondendo sob a pele?
Kael sentiu o suor frio escorrer pelas têmporas. O módulo disparou uma descarga de estática, forçando-o a cerrar os dentes para não gritar.
— Foi adrenalina, instrutor. Apenas uma manobra desesperada.
Silas inclinou-se, o olhar gélido fixo como uma lâmina. Ele não parecia interessado na verdade, mas na utilidade.
— Não minta. Sei que operou fora das especificações. Mas, em vez de confiscar seu segredo, vou dobrar sua carga. Você tem trinta e seis horas para dominar o terceiro nível de ativação. Se falhar, o exílio será a sua menor preocupação.
Kael saiu do escritório com o dossiê manchado de óleo nas mãos. O prazo de trinta e seis horas martelava em seu peito. Ele precisava chegar ao Hangar 4. O Ferrugem, seu mech, estava com os atuadores hidráulicos comprometidos após o último duelo; sem reparos, ele seria apenas um alvo estático no próximo confronto.
Ao chegar ao setor de manutenção, o painel holográfico não emitiu o brilho azul habitual. Uma luz vermelha estática cortou a penumbra. Acesso Negado: Protocolo de Segurança 9-Beta. Ordem do Comitê de Elite.
— Sai da frente, Kael. Você não pertence a este setor — A voz de Valéria ecoou pelas vigas de aço. Ela surgiu das sombras, o uniforme da elite impecável, a postura exalando a arrogância de quem nasceu com o destino traçado. Atrás dela, dois guardas de manutenção mantinham as mãos sobre os coldres de choque.
— O Ferrugem precisa de reparos, Valéria. As diretrizes de salvamento garantem o acesso mínimo — Kael respondeu, a voz trêmula pela dor neural, mas firme pela necessidade.
Valéria riu, um som seco que parecia uma sentença.
— Diretrizes são para cadetes que pretendem se formar, Kael. Você é um erro estatístico. O Comitê decidiu que seu tempo acabou.
Ela deu as costas, deixando-o diante da porta trancada. Kael sentiu o desespero subir, mas a IA em sua nuca reagiu. Ela não era apenas uma ferramenta de mira; era uma chave. Enquanto Valéria se afastava, o módulo começou a devorar a frequência de segurança da porta. O custo foi imediato: um sangramento nasal quente e espesso escorreu pelo seu lábio superior, mas, com um estalo metálico, o sistema de energia do hangar entrou em curto-circuito. As luzes oscilaram e as travas cederam.
Sob a cobertura da noite, Kael invadiu o hangar. Ele não tinha tempo para sutilezas. Conectou seu link neural diretamente ao terminal principal, sentindo o choque estático subir pelo braço como mil agulhas. O módulo de IA não apenas acessou o sistema; ele o devorou, puxando fluxos de dados de uma rede externa, uma trilha de informações militares proibidas que faziam a estrutura da Academia parecer um castelo de cartas.
Enquanto o código era integrado, a visão de Kael oscilou, revelando a Academia não como uma escola, mas como um campo de testes para algo muito maior. Ele viu o Ferrugem ganhar nova vida, os sistemas de mira brilhando com uma precisão cirúrgica que desafiava a lógica da engenharia local. Ele terminou o conserto, exausto, o corpo atingindo o limite da resistência humana. Ao longe, nas câmeras de vigilância que ele mesmo havia hackeado, Kael viu o Instrutor Silas observando-o. O olhar do instrutor não era de desprezo, mas de um estrategista avaliando uma arma que acabara de ser forjada no fogo.