O Custo da Otimização
O cheiro de ozônio e fluido hidráulico queimado impregnava o Hangar de Salvados. Para Kael, aquele aroma tinha gosto de desespero. O 'Ferrugem', seu mech de classe sucata, repousava sobre os cavaletes como uma carcaça esquecida, com os painéis de acesso abertos como feridas expostas. Faltavam quarenta e sete horas para o duelo que decidiria seu exílio da Academia de Nova Brasília. Em suas mãos, o módulo de IA proibido — resgatado sob risco de tribunal marcial — pulsava com uma luz azulada, fria e alienígena.
Kael encaixou o módulo no barramento central. O sistema protestou. Luzes de erro piscaram em um vermelho agressivo e um zumbido agudo, quase ensurdecedor, vibrou pela estrutura de metal. O 'Ferrugem' não aceitava o hardware; a interface neural era arcaica, incapaz de processar a lógica avançada daquela IA.
— Vamos, seu monte de ferro velho — sibilou Kael, os dentes cerrados.
Uma descarga elétrica saltou de um cabo exposto, atingindo seu ombro e jogando-o contra o piso metálico. O cheiro de carne queimada misturou-se ao óleo. Ele se levantou, cambaleando, o braço dormente. A interface não precisava de um barramento estável; precisava de um hospedeiro. Kael conectou o cabo de dados diretamente à porta de seu próprio implante neural. A dor foi imediata, uma pontada gélida, como se agulhas de gelo estivessem sendo cravadas em seu córtex. Ele prendeu a respiração enquanto o sistema, finalmente, estabilizava.
Horas depois, no simulador de combate, o mundo real foi sobreposto por uma grade esmeralda que pulsava no ritmo frenético de sua artéria carótida.
— Sincronização em 84% — a voz da IA ecoou em seu córtex. — Ajuste o giroscópio. O golpe do oponente virá em 0.4 segundos.
Kael desviou por instinto, a dor lancinante perfurando seu crânio. O movimento perfeito não foi dele; foi uma sugestão matemática que o forçou a dançar. Ele desferiu o golpe de plasma e o simulador registrou o abate instantâneo. Do outro lado do vidro, o Instrutor Silas observava a tela, estreitando os olhos. Os números de Kael desafiavam a física do modelo padrão. Silas, embora suspeitasse da anomalia, manteve o silêncio, um sorriso predatório surgindo em seu rosto enquanto ocultava os logs de erro.
No refeitório, o ambiente cheirava a óleo sintético e ambição barata. Kael mantinha a cabeça baixa, mas seus olhos, sob o reflexo da bandeja metálica, viam o mundo como uma série de vetores de impacto. Valéria, a cadete de elite, aproximou-se com seus seguidores, a arrogância habitual marcada na tensão precisa de seu maxilar.
— O 'Ferrugem' está fazendo um barulho estranho hoje, Kael. Ou é o seu mech, ou é o seu desespero — ela disse, parando diante dele. — Ouvi dizer que Silas lhe deu quarenta e oito horas antes de você ser descartado como lixo.
O sistema de mira da IA disparou um alerta visual: Ameaça iminente detectada. Padrão de ataque: intimidação física, foco no ombro esquerdo. Kael viu exatamente onde Valéria colocaria a mão antes que ela a movesse. Ele não recuou, sua voz mantendo uma calma gélida que fez a rival hesitar.
— O ranking não se ganha com insultos, Valéria. Talvez você devesse se preocupar com o que vem a seguir.
Valéria saiu irritada, percebendo que algo havia mudado na postura do cadete. Kael retornou ao hangar. O cronômetro no console piscava em um vermelho agressivo: restavam apenas trinta minutos para o teste de campo. Ele iniciou a sequência de inicialização neural final. A dor foi brutal, uma descarga de sobrecarga que queimou as bordas de sua visão, mas a tela do 'Ferrugem' finalmente exibiu o impossível. O sistema de mira agora projetava vetores de probabilidade sobre o campo de batalha, prevendo o futuro imediato.
Lá fora, o placar público da Academia de Nova Brasília atualizou-se com um som metálico: o nome de Kael subiu uma posição, saindo do último lugar. A escada havia começado a subir, mas o sistema de aviso de duelo disparou no console. O desafio real estava a minutos de distância.