Sucata, Óleo e a Vergonha do Ranking
O placar suspenso no centro do Hangar 7 de Nova Brasília não era apenas uma tela; era um carrasco. O brilho azulado projetava os nomes dos cadetes em ordem de eficiência de combate, um ranking que definia quem comia carne sintética e quem sobrevivia à base de rações de baixa caloria. No topo, o nome de Valéria brilhava em dourado: Rank 04. No rodapé, na última linha da lista de descarte, o nome de Kael piscava em um vermelho intermitente: Rank 492.
— Sabe o que acontece com peças que não se encaixam, Kael? — A voz de Valéria era um fio de navalha. Ela não se deu ao trabalho de olhar para trás, mantendo as mãos enluvadas ocupadas com a calibração do seu Valkyrie, uma máquina de guerra polida que parecia um deus de metal diante do Ferrugem, o chassi esquelético de Kael que gotejava fluido hidráulico no concreto.
Kael limpou as mãos sujas de graxa na calça, sentindo o peso do olhar dos outros cadetes. O desprezo deles era uma camada densa de ar sufocante.
— Elas são recicladas, Valéria — respondeu ele, a voz firme, embora a garganta estivesse seca. — Mas eu ainda não desmontei.
— Você é um erro de cálculo que a Academia insiste em manter por cota de diversidade social — ela riu, um som seco que atraiu risadinhas dos cadetes ao redor. — O sorteio de salvados de hoje é sua última chance. Se não conseguir um servomotor decente, o Ferrugem não passa do teste de amanhã. E você sabe o que acontece com pilotos sem mech: o exílio.
Ela se afastou, deixando um rastro de perfume caro que contrastava com o cheiro de ozônio e ferrugem do hangar. Kael ignorou a provocação. Sua mente estava no painel de acesso proibido que ele havia hackeado durante a distração do sorteio. Enquanto os outros disputavam as sucatas comuns, ele forçou a entrada no setor de descarte de protótipos. Seus dedos voaram pelo terminal improvisado, ignorando os avisos de intrusão que começavam a piscar em âmbar.
O compartimento 0-B se abriu com um chiado pneumático. Dentro, envolto em gel de conservação, estava um módulo de processamento de cor azul-cobalto, vibrando com uma frequência que fazia seus dentes doerem. Kael o agarrou, escondendo-o sob o traje de voo enquanto os alarmes de segurança da academia começavam a uivar, um som estridente que anunciava a caça. Ele não tinha tempo para hesitações.
De volta ao seu cubículo de manutenção, o espaço era tão exíguo que Kael precisava dobrar os joelhos para não atingir a carcaça do Ferrugem. Sobre a bancada, o módulo pulsava, uma anomalia que zombava da precariedade do hangar. Com as mãos trêmulas, ele conectou o cabo de interface neural do Ferrugem ao módulo.
Assim que o contato foi estabelecido, uma descarga estática percorreu sua espinha. A dor não era apenas um choque elétrico; era como se sua própria mente estivesse sendo forçada a processar gigabytes de dados de combate em milissegundos. Ele soltou um grito abafado, os dentes cerrados, enquanto a tela do terminal oscilava entre erros de sistema e linhas de código que ele nunca vira antes. O sistema do Ferrugem gemeu. As juntas hidráulicas do robô rangiam, tentando se adaptar a uma nova configuração de fluxo de energia.
— Vamos, droga... sincroniza — sibilou ele, o suor escorrendo pelas têmporas. A interface neural queimava, mas então, o caos de dados se organizou. A tela do terminal projetou o impossível: uma simulação de combate em tempo real, onde o sistema de mira não apenas travava no alvo, mas calculava a trajetória futura do oponente com precisão absoluta. Ele não tinha apenas uma peça; ele tinha uma IA de otimização proibida.
Antes que pudesse processar o ganho, uma bota bateu contra a porta de metal do cubículo. O Instrutor Silas entrou, o olhar frio varrendo o espaço confinado. Ele caminhou ao redor do mech, a bota batendo no concreto com uma cadência que martelava o peito de Kael.
— O Ferrugem deveria ter virado sucata há três ciclos, cadete — Silas disparou, a voz cortante. — O sorteio de hoje foi uma farsa técnica, e você foi o único a sair com algo que não deveria existir. Onde está o módulo?
Kael manteve o olhar fixo no painel de controle que agora exibia a assinatura energética otimizada. A dívida de sua família, um débito que crescia a cada segundo de inatividade, pesava mais que a ameaça de expulsão.
— É apenas um componente de refrigeração, instrutor. Recuperado dentro das regras — mentiu Kael.
Silas parou, a sombra projetada pelo brilho neon das telas sobre seu rosto endurecido. Ele não acreditava, mas não parecia interessado em confiscar o item. Havia uma fome diferente nos olhos do mentor, algo que transcendia a disciplina da academia.
— A Academia está limpando os "fracassados" para o que vem a seguir, Kael. Você tem 48 horas. Se o seu mech não provar ser mais do que uma sucata ambulante em um duelo público, você não será apenas expulso; será exilado.
O aviso de expulsão de Silas brilhou no visor: 48 horas para a reclassificação ou o exílio. Kael sentiu o módulo pulsar, pronto para reescrever o futuro. A conexão neural queimava, mas a tela mostrava o impossível: o sistema de mira do mech agora previa o futuro.