Chapter 9
O primeiro impacto da escavadeira contra a parede lateral do armazém da Associação não foi um som, mas uma vibração sísmica que subiu pelas solas dos sapatos de Lucas, atravessando o concreto da Rua Canal. Eram 08:05. O poeiral de tijolos antigos e argamassa seca subiu como um espectro, cobrindo as fachadas que, até ontem, guardavam as histórias de três gerações. Lucas não recuou. Ele segurava a pasta com os títulos de propriedade originais, o papel amarelado parecendo uma arma insuficiente contra o metal hidráulico que voltava a recuar, pronto para o próximo golpe.
O Enforcer estava parado a poucos metros, observando a destruição com uma calma que beirava a crueldade, o rosto parcialmente escondido pela aba do boné. Ele nem sequer olhou para a documentação que Lucas erguia.
— Pare isso — gritou Lucas, a voz falhando no ar saturado de poeira. — Eu tenho os títulos originais. O tribunal não autorizou a demolição desta ala.
O Enforcer caminhou até ele, ignorando a poeira que se assentava sobre seu terno impecável. Seus olhos, frios e focados, encontraram os de Lucas com um desprezo que não precisava de palavras. — Você ainda não entendeu, Lucas? Papéis não param máquinas que já foram pagas para seguir em frente. A ordem judicial que você carrega foi superada por uma de emergência, assinada há menos de uma hora. O quarteirão já é um terreno vazio para o mercado, só falta remover o entulho.
Lucas sentiu o sangue gelar. Ele precisava do livro de registros de 2018. Era a única peça que ainda mantinha o Enforcer em xeque. Ele avistou Arnaldo, o tio, tent
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