Chapter 7
A chuva na Rua Canal não limpava; ela apenas tornava o asfalto um espelho negro, refletindo os avisos de demolição colados como cicatrizes em cada vitrine. Lucas sentia o papel da carta de linhagem dobrado contra o peito, um volume rígido que parecia perfurar sua pele. À sua frente, o Enforcer bloqueava a saída do beco, a silhueta recortada pela luz amarela de um letreiro de neon que zumbia com uma insistência elétrica.
— O seu e-mail para a redação não vai subir, Lucas — a voz do homem era baixa, desprovida de qualquer ameaça teatral, o que a tornava mais letal. — Eu já conversei com o editor. Eles têm contas a pagar, e este bairro é apenas um ativo sendo liquidado. Você é um amador tentando jogar xadrez num tabuleiro onde as peças já foram vendidas.
Lucas recuou, as costas encontrando o tijolo úmido. O celular vibrou no bolso: Erro de conexão. O Enforcer não blefava; ele controlava o fluxo da informação, a escritura da loja de Helena e os documentos de imigração que mantinham a família de Lucas sob uma coleira invisível. O ar parecia escasso. Eram quase onze da noite. Oito da manhã era o fim da linha.
Ele precisava de Helena. Precisava entender por que aquele pedaço de papel, que deveria ser a salvação, carregava o peso de uma maldição. Aproveitando um segundo de distração do Enforcer, quando um táxi passou buzinando, Lucas disparou pelo beco, seus pés batendo ritmicamente contra o lixo acumulado.
O sótão da loja de tecidos cheirava a poeira e seda antiga, um refúgio que agora parecia
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