Chapter 6
O ar na loja de Helena tinha o peso de um funeral antes do corpo ser velado. Lucas apertava o livro de registros de 2018 contra o peito, sentindo as quinas da encadernação de couro falso cravarem em seus dedos. O silêncio do quarteirão, habitualmente preenchido pelo zumbido elétrico de letreiros e o murmúrio de línguas estrangeiras, parecia ter sido drenado. O bipe do celular cortou a quietude como um tiro.
Helena, atrás do balcão, observou a tela com um horror contido enquanto a luz azul iluminava as rugas profundas de seu rosto. O Enforcer não havia recuado; ele havia escalado. A foto no visor era o passaporte da mãe de Lucas, aberto sobre uma mesa de metal, o visto expirado em destaque. A mensagem era um ultimato: 08:00. O original ou o exílio.
— Você não entende — Helena murmurou, a voz falhando. — Esse registro não é apenas papel. É a prova de que esta loja, e cada metro quadrado desta rua, não pertence a quem o Enforcer diz que pertence. Se ele colocar as mãos no original, ele apaga a nossa história antes mesmo de derrubar as paredes.
Lucas sentiu o sangue gelar. Ele precisava da escritura original, trancada em um cofre bancário, mas o acesso era um labirinto legal que apenas Helena poderia percorrer — e ela estava marcada.
Ele encontrou Arnaldo em um café decadente na divisa do bairro, onde o cheiro de óleo queimado mascarava o medo. Arnaldo, com uma marca roxa na têmpora que denunciava o preço de sua traição, tremia ao segurar a xícara.
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