Migalhas de Helena
A chuva em São Paulo não era um fenômeno meteorológico; era um cúmplice. Ela transformava a fuligem da zona portuária em uma pasta negra que selava os segredos do asfalto. Beatriz conferiu o relógio: 02:14 da manhã. Faltavam exatas três horas para o fechamento do inventário dos Lane. Se ela não estivesse com a prova da farsa de Arnaldo até lá, o Protocolo 00-Alfa seria executado, e Helena seria declarada morta, enterrando qualquer chance de justiça sob toneladas de burocracia e dinheiro sujo.
O farol de um SUV preto cortou o nevoeiro, varrendo o cais. Beatriz se escondeu atrás de um contêiner de aço, o coração martelando contra as costelas. Ela tinha o mapa do bunker de Petrópolis, roubado da clínica, mas o custo daquela informação fora alto: ela agora era um alvo prioritário, caçada por mercenários que não seguiam leis, apenas ordens de Arnaldo.
— O alvo está a pé. Arnaldo quer a cabeça dela, não o depoimento. Atirem se necessário — a voz de um dos homens, amplificada pelo rádio, soou próxima demais.
Beatriz sentiu o peso do livro-razão na mochila. Cada página era uma confissão, uma sentença de morte para os pilares da sociedade paulistana. Ela forçou a entrada de um porão de concreto reforçado, uma estrutura que não constava em nenhum registro oficial. O interior cheirava a ozônio e plástico queimado. Não havia celas. Havia uma central de processamento.
Monitores de alta definição cobriam a parede, exibindo feeds em tempo real da mansão Lane. E, para seu horror, imagens de si me
Preview ends here. Subscribe to continue.