O Hospital do Silêncio
O relógio de pulso de Beatriz marcava 02:14. Faltavam quatro horas para o encerramento do inventário dos Lane. A chuva de São Paulo, uma cortina de fuligem líquida, não lavava a sujeira da cidade; ela apenas a espalhava, como a corrupção que Beatriz sentia infiltrar-se em cada poro de sua pele.
Ela parou diante da entrada de serviço da Clínica Santa Helena. O prédio, uma fortaleza de concreto armado, ostentava uma fachada de filantropia enquanto escondia um matadouro de identidades. Dois homens bloqueavam o acesso. Não eram seguranças hospitalares; eram mercenários, com as mãos repousando sobre o volume das armas sob os blazers.
— Identificação — ordenou o mais alto, os olhos varrendo Beatriz com uma precisão que a fez prender a respiração.
Ela estendeu o crachá de 'Enfermagem Noturna' que furtara. O bipe soou, mas o painel de LED brilhou em vermelho, exigindo uma verificação de retina. Beatriz não recuou. Ela sabia que a segurança da clínica era um espelho da mansão Lane, mas com uma falha estrutural: o sistema de ar-condicionado central. Com um movimento rápido, ela chutou o painel de acesso externo, forçando um curto-circuito na fiação exposta pela umidade. Faíscas dançaram no ar, o alarme de incêndio silenciou-se por sobrecarga, e a porta magnética soltou um estalo metálico. Ela mergulhou no corredor de serviço enquanto o caos administrativo distraía os homens.
O ar lá dentro tinha cheiro de éter e medo. Beatriz percorreu o quarto andar até o 402. O dispositivo de bypass, roubado do setor de TI da mansão, fez o LED passar de âmbar para verde. A porta destravou.
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