O Preço da Verdade
A chuva em São Paulo não lavava as feridas da cidade; ela apenas as escondia sob uma película de lama e indiferença. Beatriz atravessou o portão lateral da mansão Lane, o corpo curvado para proteger o volume rígido escondido sob o casaco de lã. O livro-razão de Helena, pesado como uma sentença de morte, pressionava suas costelas a cada passo trôpego. Ela tinha exatamente cinco horas e quarenta minutos antes que o cartório selasse o inventário, oficializando a transferência dos bens e, com isso, o desaparecimento definitivo da prima.
Um par de faróis cortou a escuridão da rua arborizada, avançando com uma lentidão predatória. Beatriz reconheceu o sedã preto da segurança de Dr. Arnaldo. O patriarca não estava apenas observando; ele estava fechando o cerco. Ela disparou para a calçada oposta, seus pés afundando em uma poça que transbordava do bueiro entupido. A água gelada subiu pelos tornozelos, mas ela não parou. O motor do carro acelerou, o som dos pneus rasgando a lâmina d'água aproximando-se perigosamente. Sem hesitar, Beatriz saltou sobre uma grade baixa, sentindo o ferro enferrujado rasgar o tecido de sua calça, e mergulhou no labirinto de becos do centro.
O prédio onde Lucas morava era uma carcaça de concreto no coração da cracolândia, onde o cheiro de mofo se misturava ao de fiação queimada. Ao abrir a porta, Lucas, com os olhos injetados de cafeína e paranoia, recuou ao ver o estado de Beatriz.
— Você é louca, Bia — murmurou ele, destravando a corrente de segurança. — A mansão dos Lanes está sob vigilância eletrônica de nível militar. Se você saiu de lá com isso, eles já sabem.
— Eles sabem que algo foi levado, mas não têm certeza do quê — Beatriz re
Preview ends here. Subscribe to continue.