Chapter 10
O cartório cheirava a cera de assoalho e burocracia fria. Ana Clara observou a própria assinatura no documento de casamento, o traço firme escondendo o tremor que lhe subia pelos braços. O papel não era um pacto de amor; era uma trégua armada. No instante em que a oficial selou o documento, o celular em sua bolsa vibrou com uma insistência predatória. Ela não precisou olhar para saber: a notificação da diretoria da escola de Pedro chegara. Armando cumprira a ameaça. A denúncia de falsidade ideológica estava em curso, e o casamento que deveria ser seu escudo tornara-se o gatilho da sua ruína.
Rafael Montenegro não esperou que ela falasse. Ele observou a palidez de Ana Clara e o modo como ela evitava tocar no aparelho. Sem pedir licença, ele tomou o celular das mãos dela. Seus olhos percorreram a tela com uma rapidez cirúrgica. O maxilar de Rafael travou, uma linha rígida de granito sob a pele bronzeada.
— Eles não vão levar o Pedro — disse Rafael, a voz baixa, desprovida de qualquer hesitação. Ele guardou o celular no bolso do paletó, o movimento carregado de uma autoridade que parecia desviar o ar ao redor. — Armando acha que o papel documental é a nossa única fraqueza. Ele esqueceu que, no mundo dos negócios, o que importa não é o que está escrito no passado, mas quem tem o poder de reescrever o futuro.
Ana Clara sentiu o peso do olhar dele. Havia uma intensidade ali que não era apenas o contrato; era uma proteção feroz, quase predatória. Ela precisava reagir, manter sua dignidade, mas o medo pela custódia de seu filho a mantinha paralisada. Eles entraram no carro de Rafael, o silêncio sendo interrom
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