Chapter 10
O amanhecer sobre a encosta não trouxe o aroma de pão fresco, mas o ronco metálico de motores pesados subindo a ladeira. Clara estava no pátio da Casa de Chá, os dedos cravados na madeira gasta da bancada de serviço, sentindo a vibração do solo sob os pés. Não era apenas o som; era a pressão mecânica de um sistema que não tolerava resistência. Dona Lúcia, com o avental manchado de farinha e os olhos fixos na entrada, ajustou o xale. Ao redor delas, vizinhos — rostos conhecidos que haviam compartilhado café e segredos naquela mesma mesa por décadas — formavam um semicírculo silencioso, uma barreira de corpos e dignidade contra o portão de ferro.
Rogério não esperou. Ele desceu do carro executivo antes mesmo que o motor esfriasse, o terno impecável parecendo uma afronta à simplicidade do pátio. Atrás dele, dois homens em uniformes de segurança privada mantinham as mãos próximas aos cintos, a linguagem corporal exalando a impaciência de quem tem ordens para limpar o terreno, não para negociar.
— Clara, não dificulte — Rogério começou, a voz polida, mas desprovida de qualquer calor humano. Ele gesticulou para a fachada da casa, onde uma rachadura fina, porém profunda, cortava o reboco. — A prefeitura não vai esperar que a encosta ceda com vocês dentro. Estamos aqui para a vistoria técnica e a liberação imediata do perímetro.
Clara deu um passo à frente, a postura rígida. — A vistoria só acontece se houver um laudo de risco real, Rogério. E nós sabemos que a instabilidade aqui foi causada pela sua holding na obra vizinha. Se você avançar, está assumindo a responsabilidade civil por qualquer dano estrutural que esta casa, sendo a âncora da encosta, sofrer. Você quer mesmo que seu nome esteja no relatório de um desastre anunciado?
Rogério hesitou. O brilho de ar
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