Chapter 9
O motor do caminhão da holding estalou enquanto o metal esfriava, um som metálico que cortou o silêncio tenso da manhã. Clara observou pela fresta da cortina de linho. Eram vinte e quatro horas antes do prazo oficial, mas ali estava Rogério, descendo da cabine com uma prancheta sob o braço e dois homens em coletes refletivos. Eles não estavam ali para avaliar a estrutura; estavam ali para garantir que ela colapsasse.
Clara não esperou. Ajustou o avental, limpou as mãos nas laterais e caminhou até o pátio. Quando destrancou o portão, o som seco da tranca ecoou pela rua vazia.
— A vistoria estava marcada para amanhã, Rogério — disse Clara, a voz firme, sem o tremor que sentia nas entranhas.
Rogério parou, ajustando os óculos. Ele exalava o cheiro de café barato e desespero corporativo.
— Mudanças de agenda, Clara. A estabilidade geológica desta rua é uma preocupação municipal agora. Não temos tempo para burocracia desnecessária.
— A burocracia é a única coisa que separa a sua negligência de um processo por responsabilidade civil — Clara rebateu, sacando o celular. Ela não gravava apenas o rosto dele; focava na identificação da equipe técnica. — Se vocês entrarem sem a presença de um perito independente, cada tijolo que sair do lugar será debitado na sua conta pessoal. Eu já protocolei a notificação de risco estrutural na prefeitura. Você quer ser o rosto da tragédia que vai engolir esta encosta?
Rogério hesitou, o olhar desviando para as fundações de pedra expostas. Ele sabia que Clara não blefava sobre o risco geológico. Ele recuou, mas o aviso foi gélido:
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