Chapter 4
O sol de meio-dia castigava as telhas coloniais da Casa de Chá, mas, no pátio interno, a sombra das videiras mantinha o ar denso e carregado. Clara não se deu ao trabalho de oferecer café. Ela esperou que Rogério terminasse de analisar o dossiê que ela estendera sobre a mesa de madeira bruta, o mesmo lugar onde tia Elvira costumava separar as ervas secas. O silêncio era uma arma, e Clara a manejava com a precisão de quem não tinha mais nada a perder.
— Isso é uma falsificação grosseira, Clara — Rogério soltou o papel, seus olhos percorrendo o pátio com um desdém mal disfarçado. Ele ajustou o paletó, o suor na testa traindo o nervosismo que a voz controlada tentava ocultar. — Tombamento histórico exige décadas de tramitação. Você não pode simplesmente tirar um documento de um alçapão e esperar que o embargo desapareça.
Clara se aproximou, o som de seus passos ecoando no chão de pedra irregular. Ela colocou a mão sobre o mapa das fundações que ela mesma havia desenhado, conectando os pontos estruturais que provavam a origem do século XIX.
— Não é uma falsificação, Rogério. É a prova de que o seu investidor está tentando demolir um patrimônio inalienável. Se você protocolar esse pedido de leilão amanhã, sabendo da existência deste dossiê, não será apenas o imóvel que estará em risco. Será a sua licença de corretor e o nome de quem quer que esteja pagando pelo silêncio sobre essa fraude.
Rogério recuou um passo, a arrogância vacilando. Ele não esperava que a sobrinha acuada de Elvira tivesse se transformado em uma guardiã tão metódica. Antes de se retirar pelo portão de ferro, ele lançou um olhar gélido por sobre o ombro. — Você acha que ganhou tempo, mas o dono dessa dívida não joga com papéis. Ele joga com a sobrevivência. Cuidado com o que você desenterra, Clara. Alguns segredo
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