Chapter 5
O silêncio na Casa de Chá não era um refúgio; era uma sentença em suspenso. Sem a energia elétrica — cortada por Rogério como uma represália tática — o salão principal parecia ter encolhido. O cheiro de ervas secas e madeira velha, antes nostálgico, agora carregava uma densidade quase sufocante. Clara, envolta na penumbra, ajustou a chama da vela. O brilho trêmulo iluminava o alçapão sob o balcão da cozinha, o ponto de acesso que sua tia Elvira mantivera escondido sob tábuas enceradas por décadas.
Com um pé de cabra improvisado, ela forçou a trava de ferro. O metal gemeu, um som estridente que ecoou pelo imóvel vazio, mas Clara não hesitou. O prazo de sete dias para o leilão forçado pesava como uma lâmina sobre seu pescoço. Ao abrir o nicho, o ar viciado subiu. Lá dentro, não havia apenas o mapa que ela já conhecia, mas um envelope de couro com a marca da antiga tecelagem da família. Seus dedos, trêmulos, revelaram recibos bancários e notas promissórias que não pertenciam à contabilidade oficial. A dívida de 180 mil reais, que ela acreditava ser um erro administrativo ou uma negligência de Elvira, revelava-se agora um esquema de extorsão sistemática. Funcionários públicos, nomes de holdings, pagamentos em datas que coincidiam com a deterioração da saúde de sua tia. Não era apenas uma disputa imobiliária; era um acerto de contas com o silêncio que Elvira tentara manter.
O ranger do portão metálico no pátio interrompeu sua descoberta. Não era Rogério, mas Dona Lúcia, trazendo uma sacola de tecido que cheirava a café fresco e pão de queijo.
— Você não vai conseguir manter a guarda erguida se esquecer de comer, menina — disse Lúcia, depositando a sacola sobre a mesa. Sua expressão era grave. — Rogério está espalhando nos bairros vizinhos que a estrutura desta casa é um risco im
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